quinta-feira, 14 de junho de 2012

PROFESSOR ENNIO CANDOTTI E A AMAZONIA


Ennio Candotti (Roma1942) é um físico ítalo-brasileiro, professor da Universidade Federal do Espírito Santo   e foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) por quatro mandatos.

Atualmente, atua como diretor do Museu da Amazônia, que está em fase de implantação em Manaus, mas já aberto a visitação.


Nestes tempos de ecologia, políticas ambientalistas, poluição, aquecimento global, etc., é útil tomarmos conhecimento do pensamento de autoridades no assunto. Transcrevemos abaixo excertos da entrevista concedida pelo Professor Ennio Candotti a Mônica Manir, publicada no Caderno Aliás, do jornal O Estado de São Paulo, em 4 de março de 2012.

... Fazer ciência entre nós (brasileiros) é uma batalha diária, afirma o prestigioso cientista. Não basta dizer "Temos de fazer uma boa pesquisa na Antártida" para que isso aconteça. É uma conquista passo a passo; questão de prioridade. A atividade de pesquisa é uma atividade nobre, mas não é considerada essencial.

Referindo-se às perdas e ao prejuízo ocasionado pelo incêndio que causou a morte de dois militares e ferimentos em um terceiro, na Estação Antártica Comandante Ferraz, assim se pronunciou: "As coletas de material, as amostras, cada peça de uma  pesquisa científica tem história. Se você queima a biblioteca que explica essa história, os dados são em grande  parte perdidos. Mas há muito material que foi coletado e publicado. Precisaria saber direito o que ainda não tinha sido analisado e transformado em material compartilhado."

Quanto à participação de investimento privado em pesquisa - ainda um tabu em nosso meio acadêmico -, Candotti assevera: "Não sei qual é a participação privada nos institutos que trabalham, por exemplo, com a produção de álcool de segunda geração, na qual se aproveita o bagaço. Sei que o investimento público aí é alto. Acho que o sistema deveria crescer e ter uma coisa e outra. Investimentos privados vão aumentar à medida que se tiver sucesso na implantação de laboratórios básicos para a etapa aplicada."

Perguntado sobre como reverter os pouquíssimos resultados de nossas pesquisas serem revertidos em patentes, Candotti respondeu: "... Ainda temos perfil de exportador de matérias-primas. A China nos manda produtos elaborados e nós mandamos matérias-primas. Ela vem fazendo isso nos últimos cinco, oito anos. Há dez anos, portanto, a China não era exportadora de matérias elaboradas. Ou seja, em uma década, o perfil da economia de um país pode mudar, mas isso exige planejamento, esforço concentrado. Temos uma pauta de exportações em que o valor agregado é ainda muito modesto. O fato de termos poucas patentes reflete isso. Discutíamos isso há vinte, trinta anos, no início da industrialização da Coreia, e ainda não produzimos um carro nacional. A Índia está fabricando um carro de dois mil dólares; a China vende automóveis muito baratos. Não saberíamos fazer coisa semelhante? saberíamos, sim. Talvez o fato de exportarmos grãos e minérios nos dê uma situação cômoda de poder gerar riqueza sem investir muito em inteligência."

"O que os movimentos ambientalistas pedem
é mais polícia, não mais pesquisadores"

Continuando sua entrevista, Candotti aconselha que se invista no desenvolvimento de tecnologias voltadas às demandas da incipiente Classe C, favorecida pelo bom momento da Economia do Brasil, a despeito da crise por que passam os países desenvolvidos (EUA, Comunidade Europeia, Japão e, mesmo, a própria China, que vem desacelerando seu crescimento nos últimos meses. 

Candotti preconiza a titulação de mais doutores em áreas produtivas, como aumentar o número de médicos dedicados à malária e outras doenças negligenciadas. Critica, ainda, a política de ciência na Amazônia, em que não se dá a devida atenção à enorme biodiversidade ali existente. Não se investe, por exemplo, em Microbiologia, que deveria estudar os microorganismos que transitam pela floresta, e que fazem dessa floresta a maravilha que é. Segundo sua opinião, o Brasil está praticando um crime ao tratar a Amazônia como colônia, dela extraindo muito mais do que nela se coloca.

Em posição conflitante com a tendência atual, defendida por ambientalistas, que se restringem ao mote: "Não corte as árvores, conserve, preserve, mantenha", Candotti defende que estudar e entender a floresta e sua fantástica biodiversidade vale mais do que uma árvore derrubada, num posicionamento antes romântico do que racional e produtivo, mas não expolitativo, predatório, destrutivo. Em vez de polícia, Candotti defende a presença de pesquisadores, vistos como ameaça ao meio ambiente pelo Ibama, mais preocupado com o fato de se catarem algumas formigas. Para Candotti, necessário se faz educar as pessoas, mostrar-lhes que é melhor ter um microscópio, e que é possível extrair produtos com valor de mercado muito elevado, em vez de estressar-se com uma árvore derrubada, o que não significa um aval a que se derrubem árvores. É preciso, porém, conhecer a água, o clima. Há uma falta de dimensões e de bom senso nessa discussão, que interessa apenas aos que querem preservar a Amazônia como um grande depósito de matérias-primas.

Segundo Candotti, é preciso investir mais ciência na indústria, mas o BNDES pode cuidar disso. Aos que temem a concorrência de  pesquisadores estrangeiros no Brasil, Candotti lembra que a USP foi feita com gente de fora e fez sucesso, não tendo havido perda de soberania por isso, mas há perda de soberania quando 70% das pesquisas na Amazônia são feitas fora do país, muitas vezes por pessoas que não colocaram os pés aqui. Trabalham com dados indiretos, o que revela uma fragilidade muito grande no sistema de ciência e tecnologia, e não só a respeito da Amazônia. Vale também para oceanos e até para a Antártida. 
Não há consenso na ideia de importação de cérebros na SBPC, mas há fortes simpatia por isso. Há aliados.

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Para ler toda a entrevista do Professor Ennio Candotti, acessar o site do jornal O ESTADO DE SAO PAULO, www.estadao.com.br, clicar no subtítulo Aliás, e buscar pela data de 4 de março de 2012, sob o título: "Na base do pinga-pinga"

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