O EXEMPLO DE MANDELA
Marisa Eboli, especialista em Educação Corporativa e Professora da FEA-USP, escreveu este artigo na Página 2 do Caderno de Empregos & Carreiras do Jornal O Estado de São Paulo, no dia 1 de julho de 2012
Nos últimos meses, duas notícias chamaram minha atenção. A primeira foi no início deste ano, quando a primeira-ministra alemã, Angela Merkel, tirou férias. Ela voou no avião da Força Aérea alemã, mas seu marido dispensou a "carona". Razão? Ele teria que pagar o equivalente a R$ 3 mil para embarcar junto. Com fama de poupador, procurou uma passagem bem mais em conta - apenas R$ 350 em uma companhia de baixo custo, e viajou separado.
É respeito ao dinheiro público! Em avião oficial, só viaja de graça o governante. Impossível não sonhar com mudança de comportamento em nosso Brasil mirando tal exemplo...
A segunda notícia, mais recente, questionava: "Quantos pares de sapatos uma duquesa precisa ter para compor um guarda-roupa de arrasar? Kate, a mulher do príncipe William, tem a resposta: um!" Kate repetiu os sapatos em seguidas situações oficiais, sempre com muita graça e elegância.
Fiquei imaginando se seria apenas coincidência esses fatos terem ocorrido em países cujas economias se salvam da crise europeia. Acredito que não! São sinais claros de disciplina e método na gestão pública que se convertem em gestos dos líderes e governantes desses países.
Inimigo? John Carlin é um jornalista e autor que dedicou grande parte de sua carreira à política da África do Sul, o que o levou a aproximar-se do ex-presidente Nelson Mandela. Em seu livro "Conquistando o Inimigo", que foi a base para o filme "Invictus" (2009), de Clint Eastwood, Carlin narra a história de como Mandela usou a Copa do Mundo de Rúgbi de 1995 para reconciliar a nação dividida por séculos de animosidade racial.
Mandela entendia que a única maneira de libertar seu povo seria fazer com que os próprios brancos abolissem o sistema de segregação racial. Para isso, seria preciso conquistá-los. Ainda na prisão, estudou a língua e a história dos africâneres e aprendeu tudo o que pôde sobre rúgbi, o esporte favorito dos sul-africanos brancos. Ele sabia que seus inimigos, como todos os seres humanos, queriam ser tratados com respeito; e foi assim, falando a seus corações, que dobrou todos eles, desde seus carcereiros até o presidente do país.
Recém-eleito presidente, Mandela tinha consciência de que a África do Sul continuava sendo racista e economicamente dividida, em decorrência do apartheid. A proximidade da Copa do Mundo de Rúgbi, pela primeira vez realizada no país, o fez usar o esporte para unir a população. Para tanto, chamou Francois Pienaar, capitão da equipe sul-africana, e o incentivou para que a seleção nacional fosse campeã.
O livro de Carlin busca, de forma humilde, refletir um pouco a luz de Mandela. O trecho a seguir é um desses momentos iluminados: "Ele acordou, como sempre, às 4h30 da manhã. Levantou-se, trocou de roupa, dobrou o pijama e fez a cama. Tinha sido um revolucionário a vida inteira e agora era presidente de um grande país, mas nada faria Nelson Mandela abandonar os rituais adquiridos durante seus 27 anos de prisão. Nem quando estava na casa de outras pessoas, nem quando estava hospedado num hotel de luxo, nem mesmo depois de passar uma noite no Palácio de Buckingham ou na Casa Branca. Estranhamente, jamais era afetado pela mudança de fuso horário e, estivesse em Washington, Londres ou Nova Délhi, acordava pontualmente às 4h30 e arrumava a cama. Camareiras do mundo inteiro ficavam espantadas ao descobrir que o dignitário visitante já tinha feito metade do trabalho delas".
Há literatura abundante sobre Mandela, e merecida. É impressionante ver como esse homem, filho de um chefe thembu de Mzevo, convive bem com esse status quase principesco e ao mesmo tempo é humilde, mas com um poder eloquente, nas palavras, nos gestos, na vontade e ambição, e consegue ser sempre desprovido de vingança e ódio, mesmo depois de ter sido preso durante 27 anos. Nelson Rolihlahla Mandela. E veja a ironia: Rolihlahla, em língua xosa, significa 'aquele que cria problemas'.
Relembro uma frase do economista Alexandre Schwartsman: "Os gastos públicos no Brasil têm aumentado quando a economia cresce pouco e também quando cresce muito; a única coisa que se altera é a justificativa". E imagino se um dia algum líder, inspirando-se em Mandela, resolvesse usar a Copa do Mundo e a Olimpíada para vencer o nosso principal inimigo: a gastança pública! Que belo exemplo de gestão e liderança teríamos!
Nenhum comentário:
Postar um comentário