quinta-feira, 31 de maio de 2012

BEREZKA ENSEMBLE BALLET

De forma mágica, quase divina, as bailarinas do Berezka Ensemble Ballet parecem flutuar sobre o palco, numa magnífica interpretação de uma dança folclórica russa. A técnica utilizada, o "passo flutuante", é um segredo guardado a sete chaves, desconhecida até mesmo das próprias famílias das bailarinas


quarta-feira, 30 de maio de 2012

DANIEL PIZA E A CULTURA

Jornalista, escritor, artista plástico, Daniel Piza era formado em Direito pela Universidade de São Paulo. Nascido em 28 de março de 1970, morreu em 30 de dezembro de 2011, em Minas Gerais, vítima de um acidente vascular cerebral, a poucos meses de completar 42 anos.
Não chegou a exercer a profissão de advogado, começando a escrever no jornal O Estado de São Paulo, em 1991,  principalmente sobre cultura. Teatro, cinema, literatura, bem como esportes (ele, corintiano fanático) constituíam sua área de interesse. Com a mesma facilidade abordava assuntos tão diversos quanto a política, a música tanto a popular, quanto a erudita, sobre a qual tinha excelente capacidade analítica e crítica.

Grande e voraz leitor, era capaz de analisar obras clássicas da Literatura, inclusive em línguas estrangeiras, inclusive Filosofia.

Fora tudo isso, era comentarista esportivo na Rádio CBN, a rádio que toca notícia.

Algumas de suas obras: 
Leituras do Brasil, da Editora Talent; Jornalismo Cultural, da Contexto; Ayrton Senna - O Eleito, da Ediouro; Machado de Assis - Um Gênio Brasileiro, da Imprensa Oficial; Aforismos sem Juizo, da Bertrand Brasil; Amazônia de Euclides, da Leya.

Agora que o Jornal O Estado de São Paulo disponibilizou todo o seu acervo, vale a pena pesquisar seus escritos, na Coluna que escrevia dominicalmente. 
Para acessá-lo:  www.estadao.com.br/acervo

Como amostra, transcrevo parte de artigo que escreveu no O Estado sobre o que entendia por "cultura".

Cultura não é apenas acúmulo de informação e domínio de conceitos; é um processo longo, conflituoso e não-linear, em que lutamos para retirar as cascas com que o senso comum nos embota desde que nascemos, em osmose contínua. Ao contrário do que se diz, uma biblioteca não é um lugar silencioso aonde vamos colher saberes como se fossem frutos; é uma arena de combate, onde pensamentos de várias épocas e lugares se digladiam, não raro causando mortes. Não há conhecimento sem conflitos; e isso lhe dá vida.

terça-feira, 29 de maio de 2012


"FAMILIA"


Trechos do livro "O Arroz de Palma" de Francisco Azevedo.
"Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema...Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir...Mas a vida... sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele, o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente...Já estão aí? Todos? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza. Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa. Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto: é um verdadeiro desastre. Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada. O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe Família à Oswaldo Aranha; Família à Rossini, Família à Belle Manière; Família ao Molho Pardo (em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria). Família é afinidade, é à Moda da Casa. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito. Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada, seria assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir. Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. Principalmente na cabeça de um velho já meio caduco como eu. O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete."


quinta-feira, 24 de maio de 2012

DEMOCRACIA E LIBERDADE DE IMPRENSA


Udos fundamentos da democracia é a liberdade de expressão e pensamento. É claro que não há notícia desinteressada. E como todos sabemos, por trás de alegados nobres objetivos podem esconder-se interesses escusos.

E aqui entra outro fundamento da democracia: Instituições que funcionem de maneira independente. Instituições que - livres das amarras de governos, ideologias, etc., - funcionem. Subordinadas apenas e tão somente às leis, discutidas num Parlamento isento e eleito de forma democrática, livre, subordinado, também ele a uma Constituição escrita e votada num Parlamento igualmente livre, eleito pelos cidadãos, garantidos os direitos de toda a população.

E o direito à expressão livre é outro fundamento da democracia. Direito esse que deve necessariamente ser estendido a todo e qualquer cidadão, mesmo que seja o único a ostentar determinado pensamento, e conflitante com todos os demais.

"Não concordo com uma única palavra do que dizes, mas defenderei até à morte teu direito de dizê-las" , disse alguém.

Todos sabemos que a imprensa, como qualquer outra organização, tem seus interesses, nem sempre e necessariamente meritórios. A imprensa não é uma agência do Reino dos Céus. É composta de pessoas igualmente sujeitas ao mal. Também ali a natureza humana está presente em toda a sua inteireza. Notícia que não interesse ao dono do veículo corre o risco de não ser publicada; risco tanto maior quanto menor for a isenção do mesmo veículo, e quanto mais deficiente for o caráter do responsável por sua publicação.

E aqui entram as instituições, sendo a Justiça uma delas. Mentiras e calúnias são passíveis de penalidade jurídica. Interesses inconfessáveis acabam, mais dia, menos dia, expostos.

O intolerável, o inadmissível é alguém, investido de autoridade, mesmo que conferida pelo voto e coberto pelo interesse da maioria, arrogar-se em autoridade e impedir que determinada notícia, determinado pensamento seja exposto. Mesmo que em nome dos mais nobres ideais.

Publicações isentas e detentoras de credibilidade costumam franquear espaço a quem pensa diferente. As que publicam somente um lado da questão acabam por ficar marcadas como tendenciosas.

Claro que grande parte da população não detém discernimento, nem escolaridade suficiente para diferenciar o útil do inútil; o isento do tendencioso; o justo do injusto; o verdadeiro do mentiroso, mas também não abrirá o jornal ou revista para inteirar-se, nem ligará seu rádio ou televisão para informar-se, posto que seu interesse estará voltado para assunto diverso.

Pensar em limitar liberdade de expressão e pensamento, por mais nobres argumentos que se possam apresentar, nada mais é do que censura, cerceamento de liberdade. Excessos, em uma sociedade democrática, podem ser encaminhados à Justiça, que dará a eles o devido encaminhamento, punindo-os se infringirem a lei e/ou o direito da pessoa ou instituição prejudicada.

Desde que o Brasil passou pela redemocratização, processo ainda em andamento, já que Democracia se constrói no dia-a-dia, vivemos em um Estado de Direito, governados e administrados por três poderes, formalmente independentes - Executivo, Legislativo e Judiciário - , atrelados todos a uma Constituição, promulgada em 1988, a Constituição Cidadã, segundo o sugestivo título a ela conferido pelo saudoso Deputado Ulysses Guimarães.

De uns tempos para agora, temos assistido, preocupados, a seguidas tentativas de impor limites e controles à atividade da imprensa no Brasil. Sempre em nome, claro, de nobres ideais e interesses. 

E para que dúvidas não surjam nas cabeças das pessoas, e esperadas resistências sejam neutralizadas, tais tentativas têm recebido nomes bonitos, de acordo com as modernas tendências ao politicamente correto, sempre colocando os legítimos interesses do povo - principalmente dos mais humildes - , em nome de quem o poder é exercido, Controle Social da Mídia. 

Não existe liberdade total, absoluta. Vivendo em sociedade, temos de garantir o direito e a liberdade dos nossos concidadãos. Mesmo numa democracia ainda em construção, temos mecanismos para coibir excessos, sem necessidade de recorrer a ferramentas somente utilizadas por regimes autoritários, antidemocráticos, totalitários.

O link abaixo traz o discurso do Deputado Jutahy Junior na Câmara Federal, no último dia 18 de maio de 2012.

quinta-feira, 17 de maio de 2012


Da alegoria da Caverna de Platão a Matrix, passando pelas fábulas de La Fontaine, a linguagem simbólica é um meio privilegiado para induzir à reflexão e transmitir algumas idéias.
Olivier Clerc, nesta sua breve história, através da metáfora, põe em evidência as funestas conseqüências da não consciência da mudança que infeta nossa saúde, nossas relações, a evolução social e o ambiente.
Um resumo de vida e sabedoria que cada um poderá plantar no próprio jardim, para desfrutar de seus frutos.

Olivier Clerc, nascido em 1961 na cidade de Genebra, na Suíça, é escritor, editor, tradutor e conselheiro editorial especializado nas áreas de saúde, desenvolvimento pessoal, espiritualidade e relações humanas. É também autor de Médecine, religion et peur (1999) e Tigre et l’Araignée: les deux visages de la violence (2004).

Imagine uma panela cheia de água fria, na qual nada, tranquilamente, uma pequena rã. Um pequeno fogo é aceso embaixo da panela, e a água se esquenta muito lentamente.
Fiquem vendo: se a água se esquenta muito lentamente, a rã não se apercebe de nada! Pouco a pouco a água fica morna e a rã, achando isso bastante agradável, continua a nadar… e a temperatura da água continua subindo…
Com o inevitável avanço dos minutos a água se torna mais quente do que a rã poderia apreciar, então ela se sente um pouco cansada, mas, não obstante isso, não se amedronta e continua seu “banho” fatal.
Mais alguns minutos e a água está realmente quente. A rã começa a achar desagradável, mas está muito debilitada então suporta e não faz nada. Com o passar do tempo e a subida constante da temperatura a rã acaba simplesmente cozida e morta!
Devemos observar que se a mesma rã tivesse sido lançada diretamente na água a 50 graus com um golpe de pernas ela teria pulado imediatamente para fora da panela. Isto mostra que, quando uma mudança acontece de um modo suficientemente lento escapa à consciência e não desperta, na maior parte dos casos, reação alguma, oposição alguma, ou mesmo, alguma revolta.
Se nós olharmos para o que tem acontecido em nossa sociedade desde há algumas décadas, podemos ver que nós estamos sofrendo uma lenta mudança no modo de viver, para a qual nós estamos nos acostumando. Uma quantidade de coisas que nos teriam feito horrorizar 20, 30 ou 40 anos atrás, foram pouco a pouco banalizadas e hoje, apenas incomodam ou deixam completamente indiferentes a maior parte das pessoas.
Em nome do progresso, da ciência e do lucro, são efetuados ataques contínuos às liberdades individuais, à dignidade, à integridade da natureza, à beleza e à alegria de viver. Estes ataques são efetuados lentamente, mas inexoravelmente com a constante cumplicidade das vítimas, desavisadas e agora, assim como a rã de nossa historinha, incapazes de se defenderem.
As previsões para nosso futuro, em vez de despertar reações e medidas preventivas, não fazem outra coisa senão preparar psicologicamente as pessoas a aceitarem algumas condições de vida decadentes, aliás, dramáticas. O martelar contínuo de informações, pela mídia, satura os cérebros, que não podem mais distinguir as coisas. Há uma cauterização da consciência. A rã está sendo cozida e não sabe!
Quando eu falei pela primeira vez destas coisas, era para um amanhã. Agora, é para hoje!!!
Consciência ou cozido? Você precisa escolher!
Então, se você ainda não está como a rã, meio cozido, dê um saudável golpe de pernas, antes que seja tarde demais.
NÓS JÁ ESTAMOS MEIO COZIDOS? OU NÃO?

Publicado orginalmente em Newton Luiz Finato Blog.


Você pode copiar, distribuir e exibir esta obra, desde que  seja dado crédito ao autor original e citada a fonte de consulta.
Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

Como citar este artigo:
CLERC, Olivier. A HISTÓRIA DA RÃ (Que não sabia que estava a ser cozida...). Canal Eletrônico. Disponível em http://www.canaleletronico.net/index.php?view=article&id=524. Acesso em: 18/11/2011.

O uso de metáforas não é novo. Em seu tempo, Jesus utilizou largamente este recurso didático, contando parábolas. As mais conhecidas, a do Filho Pródigo, do Semeador, do rico e do Lázaro são somente algumas. Há muitas mais registradas na Bíblia. Sábio e profundamente didático, Jesus utilizava parábolas a fim de fazer-se entender pela gente simples e humilde da Palestina, pouco afeita aos difíceis, rebuscados e tendenciosos raciocínios desenvolvidos pelos rabinos, com o fim de expor verdades teológicas. Ainda hoje em nossa "desenvolvida" sociedade tecnológica, e talvez até em virtude disso, não gostamos de sermões. Se tivermos de ouvi-los, que sejam proferidos com palavras simples e que sejam breves. 
Numa sociedade pastoril e agrícola pouco desenvolvida, Jesus utilizava linguagem simples, com a realidade do cotidiano (vasilhas de barro, candeias, redes de pescar, ovelhas, etc.) e conseguia grandes resultados.
Parábolas são contadas desde tempos imemoriais, como a registrada no capítulo nove do livro bíblico de Juízes, escrito por volta do ano 1000 antes de Cristo, por autor anônimo: a parábola das árvores e do espinheiro.
Esta metáfora da rã cozida lentamente mostra o quanto podemos estar expostos ao perigo de sermos levados a onde não queremos ir, mas que, inexorável e irremediavelmente estamos sendo conduzidos a passos lentos. Social e politicamente falando, talvez ainda haja retorno, se acordarmos a tempo e estivermos dispostos a pagar o preço da renúncia, aparentemente alto demais, ainda assim  preferível a acabarmos dominados, subjugados, destruídos.
Alguns poderão ouvir, entender, e optar pelo difícil caminho da resistência. A maioria, porém, continuará seguindo para o precipício. Remar contra a correnteza; andar no contrafluxo; pensar, assumir e declarar-se contrário ao pensamento vigente,  nunca foi fácil e jamais o será.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

O dever da liberdade


DIREITO À INFORMAÇÃO

O dever da liberdade

Por Eugênio Bucci em 25/08/2011 na edição 656
Este texto se utiliza de trechos de dois artigos que publiquei anteriormente. O primeiro, chamado “O Desejo de Censura”, saiu no jornal O Estado de S. Paulo em 31 de julho de 2011, no caderno especial “Sob Censura”, página H7, H8 e H9. O segundo é um ensaio (“A imprensa brasileira”) publicado no livro Agenda Brasileira, organizado por Lilia Moritz Schwarcz e André Botelho, pela Editora Companhia das Letras, 2011, pp. 266-277. A leitura, realizada durante a VI Conferência Legislativa sobre Liberdade de Expressão, na Câmara dos Deputados, em Brasília, em 23 de agosto de 2011, não seguiu rigorosamente o texto. Pequenos comentários foram introduzidos de improviso, e outras passagens foram abreviadas.
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Hoje, em vários países, há discussões sobre a interferência do Poder Judiciário ou de alguma outra forma de controle estatal sobre o livre fluxo de idéias, opiniões e informações jornalísticas. Na Inglaterra e, de modo mais amplo, no Reino Unido, estão em pauta as chamadas “superinjunctions”, medidas preventivas que impedem um jornal de tocar num assunto determinado e também o proíbem de mencionar o impedimento.
Em nome da proteção à privacidade do indivíduo, o jornalismo vem sofrendo restrições, ou tentativas de restrições, quase sempre abusivas. Nos Estados Unidos, tem prevalecido o entendimento de que, em casos de segurança nacional, os jornalistas não podem invocar o sigilo da fonte. Para os que cultivam a idéia de que a liberdade de imprensa tem lugar de pedra fundamental na democracia, há motivos de preocupação.
No Brasil, especialmente. A mentalidade autoritária, entre nós, não é apenas um fator conjuntural que distorce o debate público. Ela tem raízes mais fundas. Sem medo de errar, podemos dizer que ela está na estrutura da nossa instituição de Estado. Faz parte do DNA da nossa cultura política. Retarda, quando não inviabiliza, a consolidação histórica da ordem democrática. Trata-se de um anacronismo persistente que nos prende ao atraso. Essa mentalidade preserva o patrimonialismo e perpetua a opacidade na gestão pública, o mandonismo, o clientelismo e as formas mais ancestrais de corrupção. É ela quem fustiga os jornais e dissemina a ilusão de que jornalistas precisam de uma autoridade que lhes sirva de pajem, de feitor, de vigia. Preventivamente.
Pedido negado
Em nossa cultura política, o conceito radical de liberdade ainda não foi admitido. Lembremos que essa palavra, liberdade, designa aquilo que, em nossas vidas, reside além do Estado e do poder político. A liberdade não se circunscreve ao campo do que se acha autorizado pela lei, ou assegurado por força de lei, mas diz respeito, principalmente, ao espaço além do que pode ser tocado pelo Estado, por seus tentáculos físicos ou por seus ordenamentos simbólicos.
Eu diria, em termos concisos, que a liberdade gera fenômenos dos quais a lei não sabe o nome. É bom que assim seja. É necessário. Pretender instalar uma instância estatal no caminho que vai do exercício silencioso do pensamento à expressão pública da opinião é uma espécie de crime fundamental, que faria da autoridade um filtro da imaginação humana. Mas a nossa cultura autoritária acredita que esse filtro nos traria vantagens.
Sabemos que nossa História é pontuada de inversões notáveis. Com Tordesilhas, em 1494, tivemos uma delas: no caso brasileiro, a cartografia precedeu a realidade física; o mapa foi desenhado antes que a terra fosse vista. No campo religioso, a contrarreforma veio a nós bem antes da reforma, o que também nos legou consequências. Mas a inversão que mais nos interessa, hoje, aqui, é aquela que o professor Luís Milanesi, num pequeno livro de bolso, O Que é Biblioteca (Editora Brasiliense, 1983), sintetizou muito bem: “A imprensa no Brasil nasceu depois da censura.” Nada mais verdadeiro.
D. João, em 1808, trouxe para o Brasil uma bagagem do tamanho de Portugal. Entre malas e baús, mandou vir para cá uma tipografia completa, a sua corte e o próprio aparelho de Estado. Claro, mandou vir também o expediente da censura, ou melhor, as três censuras que existiam em Lisboa: duas ligadas à Igreja Católica – Santo Ofício e Ordinário – e a terceira pertencente ao poder civil, o Desembargo do Paço. Em setembro de 1808, quando a Gazeta do Rio de Janeiro saiu das oficinas como o primeiro diário gerado em terra brasileira, a engrenagem censória já se encontrava devidamente instalada.
O mensário Correio Braziliense, dirigido pelo brasileiro Hipólito José da Costa (1774-1823), lançado poucos meses antes da Gazeta, em junho de 1808, era redigido e impresso sem nenhuma censura, mas bem longe daqui. Lá em Londres. Sua circulação no Brasil, contudo, logo encontrou barreiras. Em 1809, a Coroa vetou oficialmente a circulação do Correio no Brasil. Não obstante, o jornal circulou por aqui até 1821. A proibição era meio acochambrada. Por baixo do tapete, o mesmo d. João que censurava dava uma força, a seu modo, e financiava Hipólito da Costa na Inglaterra. Com uma mão o governante vetava – com a outra, agradava. Esse fato – que aparece em vários historiadores – realça as ambiguidades luso-brasileiras em matéria de imprensa e de censura. A autoridade pátria imagina poder sustentar e silenciar a imprensa como quem regula a intensidade da chama de uma lamparina. Imagina poder defender a liberdade e a castração de uma vez só. A autoridade se imagina fonte das liberdades dos súditos.
Dentro dessa cultura, o discurso do poeta e publicista inglês John Milton ao Parlamento em Londres, em 1644, jamais foi assimilado. Na Areopagítica, Milton defendeu o princípio de que ninguém deveria ter que pedir autorização oficial para publicar um livro ou qualquer texto. Imaginem os senhores. Ainda outro dia, agora, no ano de 2011, representantes do Ministério Público de Minas Gerais solicitaram que o Ministério da Justiça vetasse a exibição de um filme sérvio em nosso país. O pedido foi sabiamente negado, mas a idéia de que o poder público pode conceder ou negar permissão para que alguém manifeste sua arte ou seu pensamento é, até hoje, amplamente aceita.
Normalidade democrática
Em 1985, quando já era finda a ditadura militar, o governo de José Sarney proibiu o filme Je vous salue, Marie, de Jean-Luc Godard. Depois disso, a Constituição de 1988 afirmou ser “livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” (artigo 5º, inciso IX), e vedou “toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística” (artigo 220, § 2º). Mesmo assim, a mentalidade censória resiste. Como evidência disso, é obrigatório que façamos referência, aqui, à censura judicial contra O Estado de S. Paulo, que pesa sobre o jornal há exatos dois anos. Dezenas de veículos sofreram com essa modalidade de censura, quase sempre, demandada por políticos ou de parentes de políticos. É uma violência contra o cidadão a serviço dos de cima.
São esses de cima que, se contrariados, vociferam abertamente contra repórteres. Arrancam microfones das mãos de jornalistas. Amaldiçoam a imprensa. Em 2009, com o Estado já sob veto, impedido de publicar informações sobre a Operação Boi Barrica, que investigava operações do empresário Fernando Sarney, o pai do empresário, José Sarney, presidente do Senado Federal, declarou que “a mídia” se convertera em “inimiga das instituições representativas” (frase que apareceu na primeira página de O Estado de S. Paulo do dia 16 de setembro de 2009). Para ele, o Senado dos atos secretos não poderia ser questionado pelos repórteres.
Poucos meses depois, no final do mesmo ano de 2009, o então presidente do STF, Gilmar Mendes, comparou a injustificada censura prévia contra o Estadão ao episódio da Escola Base, de 1994 (conforme documento ouEstadão de 11 de dezembro de 2009):
“Se tivesse havido naquele caso [o da Escola Base, de 1994] uma intervenção judicial, infelizmente não houve, que tivesse impedido aquele delegado, mancomunado com órgão de imprensa, de divulgar aquele fato, aquela estrutura toda escolar e familiar teria sido preservada. E não foi.”
A comparação não procede. Em 1994, uma pequena escola do bairro da Aclimação, na cidade de São Paulo, foi vítima de um inquérito policial espalhafatoso. Sem checar devidamente as ilações da autoridade policial encarregada das investigações, alguns órgãos de imprensa destruíram a reputação dos donos da instituição. Foi um desastre – e, desde então, o caso da Escola Base virou matéria obrigatória nos cursos de jornalismo. Já o noticiário publicado no Estadão de 2009 sobre a Operação Boi Barrica não invadiu intimidades nem destruiu a honra de ninguém. Não há semelhança alguma entre os dois episódios.
A despeito disso, as palavras de Gilmar Mendes sugerem que, se os magistrados tomassem conta dos repórteres e dos editores, as falhas jornalísticas cessariam. E “a estrutura familiar estaria preservada”!
Pronunciado por um magistrado, esse tipo de argumento é preocupante e, mais ainda, ofende a inteligência dos brasileiros. Durante a ditadura militar, as arbitrariedades praticadas pelas autoridades policiais não eram noticiadas, pois havia censura. Mesmo assim, famílias inteiras não foram preservadas. Não foi por excesso de reportagens, mas por falta de reportagens que a tirania logrou agredir tão gravemente a família brasileira. Ainda bem que hoje temos mais liberdade. Graças à liberdade, a estrutura familiar dos brasileiros está menos desprotegida.
Outro engano recorrente entre as autoridades é esse de achar que o Sigilo de Justiça ou o Sigilo de Estado, que alguns pretendem que seja eterno, deva impor silêncio ao jornalista. Não há sentido nessa presunção autoritária. A imprensa não pode ser condenada a se dobrar a sigilos que não são dela, mas da Justiça. A imprensa é essencial à sociedade justamente porque, não sendo governada pelos poderes do Estado, pode se empenhar, com independência, em descobrir os segredos que interessam ao cidadão. Imprensa só tem utilidade quando quebra segredos que, no seu âmago, escondem indevidamente informações de interesse público. Eis a razão pela qual existe a imprensa. Afinal, o que é uma notícia se não um segredo revelado?
A função de guardar os segredos oficiais é das autoridades encarregadas, não dos repórteres. Estes têm, sim, em nome do interesse público, o dever de tentar desvendá-los, por meios lícitos, e de avaliar a pertinência de publicá-los.
Mas isso também parece ser muito difícil de ser entendido pelo poder no Brasil. Ainda estamos longe de ver a liberdade de imprensa como um dado da normalidade democrática. Ainda parecemos encontrar conforto na premissa de que alguma autoridade estará zelando por nós, tomando conta dos jornalistas.
Pendor pela censura
Liberdade de imprensa, ao contrário do que alegam muitas das autoridades, não significa impunidade. É bem o contrário. A liberdade impõe uma enorme carga de responsabilidade aos jornalistas, que devem responder pelos excessos que praticarem – na Justiça. A liberdade não é um conforto, mas um dever para o jornalista. Quem tem direito à imprensa livre é a sociedade. Quanto ao jornalista, este tem o dever de exercer a sua liberdade e de construir, no exercício da sua profissão, as bases da imprensa livre. Em nome desse dever, que é a mais alta forma de respeito ao direito à informação do cidadão, muitos são os jornalistas que arriscam e mesmo perdem a vida.
Só o que cabe às autoridades é proteger a liberdade de imprensa e a integridade de seus profissionais. Da parte do Estado, o respeito à liberdade de imprensa se traduz numa renúncia: o governante de vocação democrática sabe se recusar a usar seu poder com o objetivo de interferir na mediação do debate público.
No Brasil, a mentalidade autoritária tem apreço pela figura do Estado senhor do monopólio da força. De outro lado, não aprendemos que não há democracia sem que o Estado renuncie a exercer controle prévio sobre fluxo das informações e das idéias na sociedade. E essa idéia é chave.
O Estado só existe quando, a favor dele, os cidadãos renunciam ao uso da força, para lembrar aqui a noção que foi tão bem demonstrada por Weber, numa passagem clássica, em que ele cita o líder bolchevique León Trotsky, para o qual “todo Estado se funda na força”. Pois bem: assim como o Estado só existe quando detém o monopólio da violência, a democracia só existe quando, a favor dos cidadãos, o Estado renuncia à tentação de interferir sobre a formação, a manifestação e o trânsito das opiniões e das informações.
Dessa compreensão, lamentavelmente, estamos longe. Na nossa cultura política, a brutalidade do Estado se manifesta na falta de cerimônia com que as autoridades atacam a imprensa. Essa mentalidade, além do monopólio da força, pretende ter o monopólio da opinião.
Daí esse pendor pela censura, essa inclinação incorrigível de tomar conta dos jornalistas. O tema da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa continua na ordem do dia em nosso país. Houve avanços nessa matéria? Sim, houve. Mas a mentalidade autoritária ainda persiste, manifestando-se a toda hora. Se queremos liberdade, não podemos mais deixá-la tão à vontade.
***
Eugênio Bucci é jornalista e professor da ECA-USP e da ESPM

sábado, 12 de maio de 2012

POBRES ALUNOS, BRANCOS E POBRES... por Sandra Cavalcanti​

Depois da lamentável decisão das “cotas raciais” (racismo) do STF , o artigo abaixo é muito atual...

O concurso para entrar no Instituto de Educação era famoso pelo rigor e pelo alto nível de exigências. Na verdade, era um concurso para a carreira de magistério do primeiro grau, com nomeação garantida ao fim dos sete anos. Nunca, jamais, em qualquer tempo, alguma delas teve esse direito - conseguido por mérito - contestado por conta da cor de sua pele! Essa estapafúrdia discriminação nunca passou pela cabeça de nenhum político, nem mesmo quando o País viveu os difíceis tempos do governo autoritário.

Estes dias, compareci aos festejos de uma de minhas turmas, numa linda missa na antiga Sé, já completamente restaurada e deslumbrante. Eram os 50 anos da formatura delas! Lá estavam as minhas normalistas, agora alegres senhoras, muitas vovós, algumas aposentadas, outras ainda não. Lá estavam elas, muito felizes. Lindas mulatas de olhos verdes. Brancas de cabelos pintados de louro. Negras elegantérrimas, esguias e belas. Judias com aquele ruivo típico. E as nortistas, com seu jeito de índias (na minha opinião, as mais bem-conservadas). Lá pelas tantas, a conversa recaiu sobre essa escandalosa mania de cotas raciais. Todas contra! Como experimentadas professoras, fizeram a análise certa.

Estabelecer igualdade com base na cor da pele? A raiz do problema é bem outra. Onde é que já se viu isso? Se melhorassem de fato as condições de trabalho do ensino de primeiro e segundo graus na rede pública, ninguém estaria pleiteando esse absurdo. Uma das minhas alunas hoje é titular na Uerj. Outra é desembargadora. Várias são ainda diretoras de escola. Duas promotoras. As cores, muitas. As brancas não parecem arianas. Nem se pode dizer que todas as mulatas são negras. Afinal, o Brasil é assim. A nossa mestiçagem aconteceu. O País não tem dialetos - falamos todos a mesma língua. Não há repressão religiosa. A Constituição determina que todos são iguais perante a lei, sem distinção de nenhuma natureza! Portanto, é inconstitucional querer separar brasileiros pela cor da pele. Isso é racismo! E racismo é crime inafiançável e imprescritível.

Perguntei: qual é o problema, então? É simples, mas é difícil.

A população pobre do País não está tendo governos capazes de diminuir a distância econômica entre ela e os mais ricos. Com isso, instala-se a desigualdade na hora da largada. Os mais ricos estudam em colégios particulares caros. Fazem cursinhos caros. Passam nos vestibulares para as universidades públicas e estudam de graça, isto é, à custa dos impostos pagos pelos brasileiros, ricos e pobres. Os mais pobres estudam em escolas públicas, sempre tratadas como investimentos secundários, mal instaladas, mal equipadas, malcuidadas, com magistério mal pago e sem estímulos. Quem viveu no governo Carlos Lacerda se lembra ainda de como o magistério público do ensino básico era bem considerado, respeitado e remunerado.

Hoje, com a cidade do Rio de Janeiro devastada após a administração de Leonel Brizola, com suas favelas e seus moradores entregues ao tráfico e à corrupção, e com a visão equivocada de que um sistema de ensino depende de prédios e de arquitetos, nunca a educação dos mais pobres caiu a um nível tão baixo. Achar que os únicos prejudicados por essa visão populista do processo educativo são os negros é uma farsa. Não é verdade! Todos os pobres são prejudicados: os brancos pobres, os negros pobres, os mulatos pobres, os judeus pobres, os índios pobres! Quem quiser sanar essa injustiça deve pensar na população pobre do País, não na cor da pele dos alunos. Tratem de investir, de verdade, no ensino público básico. Melhorar o nível do magistério. Retornar aos cursos normais. Acabar com essa história de exigir diploma de curso de Pedagogia para ensinar no primeiro grau. Pagar de forma justa aos professores, de acordo com o grau de
dificuldades reais que eles têm de enfrentar para dar as suas aulas. Nada pode ser sovieticamente uniformizado.
Não dá!

Para aflição nossa, o projeto que o Senado vai discutir é uma barbaridade do ponto de vista constitucional, além de errar o alvo. Se desejam que os alunos pobres, de todos os matizes, disputem em condições de igualdade com os ricos, melhorem a qualidade do ensino público. Economizem os gastos em propaganda. Cortem as mordomias federais, as estaduais e as municipais. Impeçam a corrupção. Invistam nos professores e nas escolas públicas de ensino básico.

O exemplo do esporte está aí: já viram algum jovem atleta, corredor, negro ou não, bem alimentado, bem treinado e bem qualificado, precisar que lhe deem distâncias menores e coloquem a fita de chegada mais perto? É claro que não! É na largada que se consagra a igualdade. Os pobres precisam de igualdade de condições na largada. Foi isso o que as minhas normalistas me disseram na festa dos seus 50 anos de magistério! Com elas, foi assim.

*Sandra Cavalcanti, professora, jornalista, foi deputada federal
constituinte, secretária de Serviços Sociais no governo Carlos Lacerda,
fundou e presidiu o BNH no governo Castelo Branco.
Nada melhor para iniciar meu blog do que uma boa música!