quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Não concordo, mas pode defender seu ponto de vista

Voltaire, o grande filósofo do Iluminismo, disse algo como, "Não concordo com uma única palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo". Esta é uma das características mais marcantes do que chamamos democracia: o respeito à opinião alheia. Antes de um regime político, até mal definido, democracia significa liberdade.
Esta frase de Voltaire veio-me à memória nestes dias em que por causa de um "filme" - segundo consta, muito ruim - , muçulmanos de todo o mundo têm saído às ruas a fim de não só protestar, mas de exigir do governo norte-americano providências no sentido de proibir sua exibição, não só em cinemas (como se fosse possível), mas também pelo Youtube.
Em que pese o possível exagero dos que se julgam ofendidos, consideremos a insanidade de quem fez um filme provocativo, além de ostentar gosto duvidoso, segundo quem a ele assistiu.
Muçulmanos do mundo inteiro têm em Maomé o único profeta de Alá. Sua representação pictórica ou em filmes é rigorosamente proibida nos países islâmicos, que consideram desobediência a este preceito blasfêmia punível com a morte.
Carlos Novaes, cientista político, que divide a bancada com a Maria Cristina Poli no Jornal da Cultura (Canal 2) - São Paulo, a respeito, salientou algo digno de nota: disse ele que personalidades ou objetos sagrados só o são para quem neles acredita, não sendo ponderável, portanto, que se proíbam críticas a que culto, personalidade ou religião se apresente. Exceto para quem neles crê, qualquer símbolo religioso só é sagrado para o adepto daquela confissão religiosa. Qual o significado da cruz para um muçulmano, um budista, ou mesmo um ateu? Nenhum. Exceto que dentro dos princípios da democracia, todos devem respeitar símbolos e crenças dos demais. 
Carlos Novaes posicionou-se favorável a que símbolos e crenças religiosos sejam, sim, discutidos, não tendo qualquer sentido proibir-se a livre manifestação de pensamento por ferir suscetibilidades alheias. Exageros à parte, Novaes está coberto de razão. 
Nos países islâmicos é terminantemente proibida a pregação de religiões outras, que não o Islamismo. Enquanto isso, muçulmanos estrangeiros em países ocidentais exigem o direito ao uso do véu e até mesmo da burka por parte de quem assim o desejar. Dois pesos e duas medidas.
É sabido, ainda, que padres e pastores protestantes são até mesmo condenados à morte pelo fato de, na convivência com os naturais dos países muçulmanos em que passaram a morar, muitas vezes até por dever de ofício, recebem a "conversão" de muçulmanos à fé cristã, conversão proibida pelas rígidas leis islâmicas.
E enquanto isso, de mudança para países cristãos, gozam de plena liberdade de culto, de construir suas mesquitas e, mesmo, exercer forte trabalho proselitista.
O Cristianismo e seus símbolos, a Cruz, a Bíblia, as imagens de santos têm sido desrespeitados e vilipendiados por todos os lados nas sociedades ocidentais. Jesus já foi acusado de manter relacionamento homossexual com João, o discípulo amado. Dan Brown, em sua obra O Código Da Vinci, defende a tese de que no célebre quadro A Santa Ceia, é Maria Madalena, e não o discípulo João, a pessoa que reclina a cabeça no colo de Jesus. Seria ela, sua esposa. Vai mais além: Jesus teria sido casado com Madalena, com quem teve uma filha, e que ambas, após a morte de Jesus (descartada sua ressurreição) teriam sido obrigadas a fugir, refugiando-se na França, sob a proteção dos druidas, espécie de feiticeiros.
Na remota possibilidade de ser verdadeira tal assertiva, isso representaria uma reviravolta absolutamente radical no Cristianismo, tal como o conhecemos. Jesus teria simplesmente morrido, como qualquer ser humano, seus discípulos se teriam revelado cruéis ao perseguir a escolhida por Jesus, além da própria filha, o que colocaria homens humildes, pescadores em sua maioria, na incômoda posição de algozes e calculistas frios, além de colocar a filha de Jesus com Madalena como neta de Deus!
Sacrilégio! Gritariam alguns, escandalizados.
Revolucionário, hippie, desajustado, louco, esquizofrênico, usurpador, entre tantos outros títulos nada respeitosos têm alcunhado aquele que um dia, deixou a glória que tinha junto ao Pai, bem como sua posição de divindade, a fim de viver a vida comum de homem, e acabar morto numa cruz, a mais infame, vergonhosa, ignominiosa forma de executar criminosos da pior espécie, reservada a assassinos, terroristas, estupradores, e por aí afora.
A fé cristã, porém, segundo a narrativa bíblica, coloca essa execução como vicária, isto é, substitutiva. Jesus, para o cristão, estava substituindo o homem, pecador, na cruz. Assim agiu, para livrar o ser humano de castigo semelhante, livrando-o, assim da pena por se ter tornado pecador. E uma vez consumada sua execução, o homem foi tornado livre da pena.
Parece loucura? Insanidade? Não para o cristão. No entanto, todas as denominadas "blasfêmias" de que têm sido rotuladas diferentes visões do Cristo e de sua missão por aqui, não têm gerado senão democráticos protestos por parte de seus seguidores. Mesmo que consideremos que boa parte da chamada Crtistandade gostaria de impedir pela força da lei, tais concepções acusadas de sacrílegas.
Paremos por um pouco e pensemos. Como cristãos (para quem o é): Jesus precisa de quem o defenda? Ou será que não temos fervor religioso suficiente para lutar e impedir que o nome de Jesus Cristo continue sendo vilipendiado mundo afora?
Se atentarmos, porém, para os ensinamentos do próprio Jesus, não contra-atacaríamos, exatamente como se tem feito. Não necessariamente por seguirmos tais ensinamentos.
"Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: Não resistais ao perverso; mas a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas." - Ensino de Jesus Cristo em Seu Sermão do Monte - Evangelho de Mateus 5.38 a 41
Jesus comportou-se ató o fim da forma como ensinou, pregou e viveu. Diante do pusilânime, oportunista governador romano, Pôncio Pilatos, que incita Jesus a defender-se das acusações feitas, Jesus responde:
"O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui." - Evangelho de João, 18.36
Ao longo da História, o mundo tem sido palco de guerras terríveis, muitas vezes entre povos irmãos, como agora, na Síria. A Guerra Civil Espanhola é outro triste exemplo de guerra fratricida. A luta milenar entre judeus e palestinos, bem como outras guerras, como entre bascos e espanhóis, irlandeses e ingleses, etc., poderiam ter desfecho radicalmente oposto se os ensinamentos de Cristo - aliás ignorados pela própria Igreja - fossem seguidos e vividos.


                    

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