terça-feira, 25 de setembro de 2012

Cosmovisão Cristã


Estou lendo um livro muito interessante, "O Universo ao Lado". Adquirido há uns cinco anos, somente agora resolvi lê-lo. Seu autor, James W. Sire, é editor sênior da Intervarsity Press e palestrante muito requisitado em colégios e universidades dos Estados Unidos e Europa. Ele é autor também  dos livros Scripture Twisting, Discipleship of the Mind, Chris Christmas Goes to College e Why Sould Anyone Believe Anything at All?

O assunto do livro: Cosmovisões. Cosmovisão é uma dessas palavras que ninguém, ou quase ninguém usa, e menos conhece. Vou transcrever a definição do próprio livro sobre cosmovisão.

"Em essência, é um conjunto de pressuposições (hipóteses que podem ser verdadeiras, parcialmente verdadeiras ou inteiramente falsas) que sustentamos (consciente ou inconscientemente) sobre a formação básica do nosso mundo."
O livro analisa coisas como teísmo, deísmo, naturalismo, niilismo, existencialismo, e por aí vai.

Eu não tenho intelecto suficientemente desenvolvido para captar tudo o que é ali abordado. Pelo menos em grau suficiente para assimilar seu conteúdo.
Todavia, entrei agora no capítulo que estuda Existencialismo, aquela vertente da Filosofia que ocupou a cabeça do grande pensador Jean Paul Sartre.

Um parágrafo desse livro, porém, chamou minha atenção, e quero conversar um pouco a respeito. Encontra-se à página 137, segundo parágrafo, que passo a transcrever.

"Sem dúvida, se o Deus judaico-cristão existe, fizemos melhor em reconhecê-lo porque nosso destino eterno depende disso. Mas dizem os existencialistas, a informação não está totalmente completa e nunca estará, e assim toda pessoa que quer ser um teísta deve dar um passo à frente e escolher pela fé. Deus nunca se revelará a si mesmo de uma forma que não seja ambígua. Consequentemente, cada pessoa, na solidão da sua própria subjetividade, rodeada por muito mais trevas do que luz, deve escolher. E essa escolha deve ser um ato radical de fé."

O parágrafo não se esgota aqui, mas é o suficiente.
Diz o autor que fizemos bem em reconhecer Deus porque nosso destino eterno depende disso. De certa forma isso é verdade. A Teologia, porém (pelo menos a Teologia Tradicional), diz que Deus nos alcançou. Não fomos nós que chegamos à conclusão de Sua Existência. Apenas nos rendemos à sua evidência. E o fizemos (se o fizemos), não movidos por uma abordagem intelectual ou filosófica, mas em resposta ao chamado de Deus. 

Ainda da Teologia, aprendemos que Deus nos chamou através de Seu Filho, Jesus Cristo. Claro que não chamou apenas a alguns diletos e seletos, mas a todos. Alguns responderam (e ainda hão de responder) ao chamado divino.
Em conversa com uns homens de origem grega que o haviam procurado, pouco antes de sua paixão e morte, Jesus lhes disse: "E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo." - João 12.32. Jesus atraiu (e atrai) todos; não somente alguns.
Levantado da terra significava crucificado, pois os condenados ficavam suspensos, pés fora do chão.

Os existencialistas dizem, ainda, que a informação (a revelação) não está completa e nunca estará. Até certo ponto, mas só até certo ponto, esta afirmação está correta. Os cristãos têm a Bíblia como a revelação de Deus ao homem, a Palavra de Deus. É como se fosse a própria boca do Todo-Poderoso a falar ao homem. Nos dias anteriores ao Advento do Cristo, essa revelação estava incompleta, pois a Palavra de Deus estava ainda em formação, parcial. A encarnação do Filho de Deus cumpriu as profecias que prometiam a restauração do Reino de Deus. Os judeus entendiam o conceito de Reino, como algo material, político, o que os levou a rejeitar por impostor, lunático, ou algo assim, o Filho de Deus. 

Reino de Deus, porém, está antes ligado aos valores espirituais, à indispensável reconciliação do homem com Deus, conseguida pelo sacrifício vicário, isto é, substitutivo de Jesus que ocupou, na Cruz, o lugar que era do homem, por direito de condenação, por sua condição de pecador.

O autor do livro bíblico de Hebreus (para alguns, Paulo) assim abre o livro:

"Havendo Deus, outrora, falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais (referia-se aos judeus), pelos profetas (Isaias, Jeremias, Ezequiel, etc.), nestes últimos dias nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Ele (o Filho, Jesus), que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser (do Ser de Deus), sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados (através da Cruz), assentou-se à direita da Majestade nas alturas (posição de autoridade), tendo-se tornado tão superior aos anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles. Hebreus 1.1-4.

Quer dizer: Além de seu papel de nos substituir na cruz, pagando Ele o preço do pecado, que era nosso, Jesus é A Palavra. É como se antes de Jesus tornar-se homem, comum e mortal como qualquer de nós, a Palavra de Deus subsistisse escrita nos pergaminhos e vocalizada através dos profetas, conforme afirma o início de Hebreus (1.1). Quando chegou até nós e começou Seu ministério, falando, pregando, curando, ressuscitando mortos, etc., foi como se a própria Palavra de Deus, Segunda Pessoa da Trindade Eterna se materializasse no Jesus histórico.

Nesse sentido, a informação está completa. Absolutamente completa. Nada mais há a acrescentar. De outro lado, porém, podemos admitir com os existencialistas, ditos teístas, que realmente a informação nunca estará completa. Não porque falte algo na informação, mas porque o homem nunca se dá por satisfeito. Para o homem, decaído, espiritualmente morto, sempre faltará algo. Ele quer crer, sente que precisa disso, mas sempre resta uma dúvida, alimentada pela ausência, e não pela insuficiência de fé.  

O texto continua, dizendo que Deus nunca revelará a si mesmo de uma forma que não seja ambígua. Neste ponto tenho de concordar com os existencialistas. Ao revelar-se ao homem, Deus realmente o faz de maneira ambígua. Ou os judeus teriam crido e aceitado Jesus. Mas como aceitar alguém como Ele? nascido fora dos grandes círculos da Judéia, quando O esperavam num palácio. Nascido de uma família pobre, de u`a mãe de cuja virtude se podia duvidar (virgem, grávida?!). Mesmo a despeito de Isaías, cerca de 700 anos antes de seu nascimento ter dito claramente que "... a virgem conceberá e dará à luz um filho..." Não! Era demais! Como aceitar a chegada de alguém assim? Mas quê? Tratar-se-ia de um ser defeituoso, sem pai gerador? O que é isso? Até hoje se especula sobre a possibilidade de sua origem extra-terrestre. E suas atitudes, então? Dado a relacionar-se com publicanos (colaboracionistas com os odiados romanos) e prostitutas; nunca frequentou as escolas de rabinos, tidas por absolutamente necessárias, fundamentais! Era por isso, com certeza, que não se enquadrava nos padrões sociais e religiosos vigentes. Querem maior ambiguidade? 
A Palavra de Deus, porém, é pródiga em mostrar como e quanto naquele carpinteiro extemporâneo cumpriram-se as profecias messiânicas que prometiam o resgate de Israel, através do Messias.
No Evangelho escrito por Mateus, cujo objetivo e finalidade foi mostrar aos judeus que Jesus era realmente o Messias prometido e ansiosamente aguardado, seu autor lista dezenas de fatos que cumprem as profecias esparsas pelos livros do Antigo Testamento, desde o Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), passando pelas poesias dos Salmos escritos pelo rei Davi, e chegando aos profetas (Isaias, Jeremias, Ezequiel, Daniel, Miquéias, e tantos outros). 

Jesus, porém, continua ambíguo. Para nele crer e assumi-lo como Filho de Deus,  Salvador, Senhor, Sacerdote, Profeta, Rei e igualmente Deus, com o Pai, temos de nos despir de muitos preconceitos. Por isso, a decisão humana deve constituir NECESSARIAMENTE um ato radical de fé.

Nossa sociedade moderna, assumidamente racional, que acredita somente naquilo que pode ver, apalpar, cheirar, embora em sua racionalidade louca acabe por aceitar muitas das afirmações da Ciência pela fé (como poderia um homem comum constatar racionalmente a existência do átomo, por exemplo?), terá de dar um passo radical de fé, se ousar crer, pois sempre estará frente a ambiguidades.

Após esse salto radical de fé (passando por cima de raciocínios, demonstrações filosóficas, posturas modernas, etc.), mas sem abrir mão do raciocínio, crer se tornará algo fácil, fluido, tranquilo. E trará a paz. Que aliás sempre foi a finalidade da vinda de Jesus ao mundo. 

"Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados." Isaias 53.5

A diferença, a radical diferença é que não é o homem que chega à conclusão de Deus e à fé. Apenas responde ao comovente chamado de Deus.

"Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores." - Romanos 5.8

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Não concordo, mas pode defender seu ponto de vista

Voltaire, o grande filósofo do Iluminismo, disse algo como, "Não concordo com uma única palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo". Esta é uma das características mais marcantes do que chamamos democracia: o respeito à opinião alheia. Antes de um regime político, até mal definido, democracia significa liberdade.
Esta frase de Voltaire veio-me à memória nestes dias em que por causa de um "filme" - segundo consta, muito ruim - , muçulmanos de todo o mundo têm saído às ruas a fim de não só protestar, mas de exigir do governo norte-americano providências no sentido de proibir sua exibição, não só em cinemas (como se fosse possível), mas também pelo Youtube.
Em que pese o possível exagero dos que se julgam ofendidos, consideremos a insanidade de quem fez um filme provocativo, além de ostentar gosto duvidoso, segundo quem a ele assistiu.
Muçulmanos do mundo inteiro têm em Maomé o único profeta de Alá. Sua representação pictórica ou em filmes é rigorosamente proibida nos países islâmicos, que consideram desobediência a este preceito blasfêmia punível com a morte.
Carlos Novaes, cientista político, que divide a bancada com a Maria Cristina Poli no Jornal da Cultura (Canal 2) - São Paulo, a respeito, salientou algo digno de nota: disse ele que personalidades ou objetos sagrados só o são para quem neles acredita, não sendo ponderável, portanto, que se proíbam críticas a que culto, personalidade ou religião se apresente. Exceto para quem neles crê, qualquer símbolo religioso só é sagrado para o adepto daquela confissão religiosa. Qual o significado da cruz para um muçulmano, um budista, ou mesmo um ateu? Nenhum. Exceto que dentro dos princípios da democracia, todos devem respeitar símbolos e crenças dos demais. 
Carlos Novaes posicionou-se favorável a que símbolos e crenças religiosos sejam, sim, discutidos, não tendo qualquer sentido proibir-se a livre manifestação de pensamento por ferir suscetibilidades alheias. Exageros à parte, Novaes está coberto de razão. 
Nos países islâmicos é terminantemente proibida a pregação de religiões outras, que não o Islamismo. Enquanto isso, muçulmanos estrangeiros em países ocidentais exigem o direito ao uso do véu e até mesmo da burka por parte de quem assim o desejar. Dois pesos e duas medidas.
É sabido, ainda, que padres e pastores protestantes são até mesmo condenados à morte pelo fato de, na convivência com os naturais dos países muçulmanos em que passaram a morar, muitas vezes até por dever de ofício, recebem a "conversão" de muçulmanos à fé cristã, conversão proibida pelas rígidas leis islâmicas.
E enquanto isso, de mudança para países cristãos, gozam de plena liberdade de culto, de construir suas mesquitas e, mesmo, exercer forte trabalho proselitista.
O Cristianismo e seus símbolos, a Cruz, a Bíblia, as imagens de santos têm sido desrespeitados e vilipendiados por todos os lados nas sociedades ocidentais. Jesus já foi acusado de manter relacionamento homossexual com João, o discípulo amado. Dan Brown, em sua obra O Código Da Vinci, defende a tese de que no célebre quadro A Santa Ceia, é Maria Madalena, e não o discípulo João, a pessoa que reclina a cabeça no colo de Jesus. Seria ela, sua esposa. Vai mais além: Jesus teria sido casado com Madalena, com quem teve uma filha, e que ambas, após a morte de Jesus (descartada sua ressurreição) teriam sido obrigadas a fugir, refugiando-se na França, sob a proteção dos druidas, espécie de feiticeiros.
Na remota possibilidade de ser verdadeira tal assertiva, isso representaria uma reviravolta absolutamente radical no Cristianismo, tal como o conhecemos. Jesus teria simplesmente morrido, como qualquer ser humano, seus discípulos se teriam revelado cruéis ao perseguir a escolhida por Jesus, além da própria filha, o que colocaria homens humildes, pescadores em sua maioria, na incômoda posição de algozes e calculistas frios, além de colocar a filha de Jesus com Madalena como neta de Deus!
Sacrilégio! Gritariam alguns, escandalizados.
Revolucionário, hippie, desajustado, louco, esquizofrênico, usurpador, entre tantos outros títulos nada respeitosos têm alcunhado aquele que um dia, deixou a glória que tinha junto ao Pai, bem como sua posição de divindade, a fim de viver a vida comum de homem, e acabar morto numa cruz, a mais infame, vergonhosa, ignominiosa forma de executar criminosos da pior espécie, reservada a assassinos, terroristas, estupradores, e por aí afora.
A fé cristã, porém, segundo a narrativa bíblica, coloca essa execução como vicária, isto é, substitutiva. Jesus, para o cristão, estava substituindo o homem, pecador, na cruz. Assim agiu, para livrar o ser humano de castigo semelhante, livrando-o, assim da pena por se ter tornado pecador. E uma vez consumada sua execução, o homem foi tornado livre da pena.
Parece loucura? Insanidade? Não para o cristão. No entanto, todas as denominadas "blasfêmias" de que têm sido rotuladas diferentes visões do Cristo e de sua missão por aqui, não têm gerado senão democráticos protestos por parte de seus seguidores. Mesmo que consideremos que boa parte da chamada Crtistandade gostaria de impedir pela força da lei, tais concepções acusadas de sacrílegas.
Paremos por um pouco e pensemos. Como cristãos (para quem o é): Jesus precisa de quem o defenda? Ou será que não temos fervor religioso suficiente para lutar e impedir que o nome de Jesus Cristo continue sendo vilipendiado mundo afora?
Se atentarmos, porém, para os ensinamentos do próprio Jesus, não contra-atacaríamos, exatamente como se tem feito. Não necessariamente por seguirmos tais ensinamentos.
"Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: Não resistais ao perverso; mas a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas." - Ensino de Jesus Cristo em Seu Sermão do Monte - Evangelho de Mateus 5.38 a 41
Jesus comportou-se ató o fim da forma como ensinou, pregou e viveu. Diante do pusilânime, oportunista governador romano, Pôncio Pilatos, que incita Jesus a defender-se das acusações feitas, Jesus responde:
"O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui." - Evangelho de João, 18.36
Ao longo da História, o mundo tem sido palco de guerras terríveis, muitas vezes entre povos irmãos, como agora, na Síria. A Guerra Civil Espanhola é outro triste exemplo de guerra fratricida. A luta milenar entre judeus e palestinos, bem como outras guerras, como entre bascos e espanhóis, irlandeses e ingleses, etc., poderiam ter desfecho radicalmente oposto se os ensinamentos de Cristo - aliás ignorados pela própria Igreja - fossem seguidos e vividos.