terça-feira, 25 de setembro de 2012

Cosmovisão Cristã


Estou lendo um livro muito interessante, "O Universo ao Lado". Adquirido há uns cinco anos, somente agora resolvi lê-lo. Seu autor, James W. Sire, é editor sênior da Intervarsity Press e palestrante muito requisitado em colégios e universidades dos Estados Unidos e Europa. Ele é autor também  dos livros Scripture Twisting, Discipleship of the Mind, Chris Christmas Goes to College e Why Sould Anyone Believe Anything at All?

O assunto do livro: Cosmovisões. Cosmovisão é uma dessas palavras que ninguém, ou quase ninguém usa, e menos conhece. Vou transcrever a definição do próprio livro sobre cosmovisão.

"Em essência, é um conjunto de pressuposições (hipóteses que podem ser verdadeiras, parcialmente verdadeiras ou inteiramente falsas) que sustentamos (consciente ou inconscientemente) sobre a formação básica do nosso mundo."
O livro analisa coisas como teísmo, deísmo, naturalismo, niilismo, existencialismo, e por aí vai.

Eu não tenho intelecto suficientemente desenvolvido para captar tudo o que é ali abordado. Pelo menos em grau suficiente para assimilar seu conteúdo.
Todavia, entrei agora no capítulo que estuda Existencialismo, aquela vertente da Filosofia que ocupou a cabeça do grande pensador Jean Paul Sartre.

Um parágrafo desse livro, porém, chamou minha atenção, e quero conversar um pouco a respeito. Encontra-se à página 137, segundo parágrafo, que passo a transcrever.

"Sem dúvida, se o Deus judaico-cristão existe, fizemos melhor em reconhecê-lo porque nosso destino eterno depende disso. Mas dizem os existencialistas, a informação não está totalmente completa e nunca estará, e assim toda pessoa que quer ser um teísta deve dar um passo à frente e escolher pela fé. Deus nunca se revelará a si mesmo de uma forma que não seja ambígua. Consequentemente, cada pessoa, na solidão da sua própria subjetividade, rodeada por muito mais trevas do que luz, deve escolher. E essa escolha deve ser um ato radical de fé."

O parágrafo não se esgota aqui, mas é o suficiente.
Diz o autor que fizemos bem em reconhecer Deus porque nosso destino eterno depende disso. De certa forma isso é verdade. A Teologia, porém (pelo menos a Teologia Tradicional), diz que Deus nos alcançou. Não fomos nós que chegamos à conclusão de Sua Existência. Apenas nos rendemos à sua evidência. E o fizemos (se o fizemos), não movidos por uma abordagem intelectual ou filosófica, mas em resposta ao chamado de Deus. 

Ainda da Teologia, aprendemos que Deus nos chamou através de Seu Filho, Jesus Cristo. Claro que não chamou apenas a alguns diletos e seletos, mas a todos. Alguns responderam (e ainda hão de responder) ao chamado divino.
Em conversa com uns homens de origem grega que o haviam procurado, pouco antes de sua paixão e morte, Jesus lhes disse: "E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo." - João 12.32. Jesus atraiu (e atrai) todos; não somente alguns.
Levantado da terra significava crucificado, pois os condenados ficavam suspensos, pés fora do chão.

Os existencialistas dizem, ainda, que a informação (a revelação) não está completa e nunca estará. Até certo ponto, mas só até certo ponto, esta afirmação está correta. Os cristãos têm a Bíblia como a revelação de Deus ao homem, a Palavra de Deus. É como se fosse a própria boca do Todo-Poderoso a falar ao homem. Nos dias anteriores ao Advento do Cristo, essa revelação estava incompleta, pois a Palavra de Deus estava ainda em formação, parcial. A encarnação do Filho de Deus cumpriu as profecias que prometiam a restauração do Reino de Deus. Os judeus entendiam o conceito de Reino, como algo material, político, o que os levou a rejeitar por impostor, lunático, ou algo assim, o Filho de Deus. 

Reino de Deus, porém, está antes ligado aos valores espirituais, à indispensável reconciliação do homem com Deus, conseguida pelo sacrifício vicário, isto é, substitutivo de Jesus que ocupou, na Cruz, o lugar que era do homem, por direito de condenação, por sua condição de pecador.

O autor do livro bíblico de Hebreus (para alguns, Paulo) assim abre o livro:

"Havendo Deus, outrora, falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais (referia-se aos judeus), pelos profetas (Isaias, Jeremias, Ezequiel, etc.), nestes últimos dias nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Ele (o Filho, Jesus), que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser (do Ser de Deus), sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados (através da Cruz), assentou-se à direita da Majestade nas alturas (posição de autoridade), tendo-se tornado tão superior aos anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles. Hebreus 1.1-4.

Quer dizer: Além de seu papel de nos substituir na cruz, pagando Ele o preço do pecado, que era nosso, Jesus é A Palavra. É como se antes de Jesus tornar-se homem, comum e mortal como qualquer de nós, a Palavra de Deus subsistisse escrita nos pergaminhos e vocalizada através dos profetas, conforme afirma o início de Hebreus (1.1). Quando chegou até nós e começou Seu ministério, falando, pregando, curando, ressuscitando mortos, etc., foi como se a própria Palavra de Deus, Segunda Pessoa da Trindade Eterna se materializasse no Jesus histórico.

Nesse sentido, a informação está completa. Absolutamente completa. Nada mais há a acrescentar. De outro lado, porém, podemos admitir com os existencialistas, ditos teístas, que realmente a informação nunca estará completa. Não porque falte algo na informação, mas porque o homem nunca se dá por satisfeito. Para o homem, decaído, espiritualmente morto, sempre faltará algo. Ele quer crer, sente que precisa disso, mas sempre resta uma dúvida, alimentada pela ausência, e não pela insuficiência de fé.  

O texto continua, dizendo que Deus nunca revelará a si mesmo de uma forma que não seja ambígua. Neste ponto tenho de concordar com os existencialistas. Ao revelar-se ao homem, Deus realmente o faz de maneira ambígua. Ou os judeus teriam crido e aceitado Jesus. Mas como aceitar alguém como Ele? nascido fora dos grandes círculos da Judéia, quando O esperavam num palácio. Nascido de uma família pobre, de u`a mãe de cuja virtude se podia duvidar (virgem, grávida?!). Mesmo a despeito de Isaías, cerca de 700 anos antes de seu nascimento ter dito claramente que "... a virgem conceberá e dará à luz um filho..." Não! Era demais! Como aceitar a chegada de alguém assim? Mas quê? Tratar-se-ia de um ser defeituoso, sem pai gerador? O que é isso? Até hoje se especula sobre a possibilidade de sua origem extra-terrestre. E suas atitudes, então? Dado a relacionar-se com publicanos (colaboracionistas com os odiados romanos) e prostitutas; nunca frequentou as escolas de rabinos, tidas por absolutamente necessárias, fundamentais! Era por isso, com certeza, que não se enquadrava nos padrões sociais e religiosos vigentes. Querem maior ambiguidade? 
A Palavra de Deus, porém, é pródiga em mostrar como e quanto naquele carpinteiro extemporâneo cumpriram-se as profecias messiânicas que prometiam o resgate de Israel, através do Messias.
No Evangelho escrito por Mateus, cujo objetivo e finalidade foi mostrar aos judeus que Jesus era realmente o Messias prometido e ansiosamente aguardado, seu autor lista dezenas de fatos que cumprem as profecias esparsas pelos livros do Antigo Testamento, desde o Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), passando pelas poesias dos Salmos escritos pelo rei Davi, e chegando aos profetas (Isaias, Jeremias, Ezequiel, Daniel, Miquéias, e tantos outros). 

Jesus, porém, continua ambíguo. Para nele crer e assumi-lo como Filho de Deus,  Salvador, Senhor, Sacerdote, Profeta, Rei e igualmente Deus, com o Pai, temos de nos despir de muitos preconceitos. Por isso, a decisão humana deve constituir NECESSARIAMENTE um ato radical de fé.

Nossa sociedade moderna, assumidamente racional, que acredita somente naquilo que pode ver, apalpar, cheirar, embora em sua racionalidade louca acabe por aceitar muitas das afirmações da Ciência pela fé (como poderia um homem comum constatar racionalmente a existência do átomo, por exemplo?), terá de dar um passo radical de fé, se ousar crer, pois sempre estará frente a ambiguidades.

Após esse salto radical de fé (passando por cima de raciocínios, demonstrações filosóficas, posturas modernas, etc.), mas sem abrir mão do raciocínio, crer se tornará algo fácil, fluido, tranquilo. E trará a paz. Que aliás sempre foi a finalidade da vinda de Jesus ao mundo. 

"Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados." Isaias 53.5

A diferença, a radical diferença é que não é o homem que chega à conclusão de Deus e à fé. Apenas responde ao comovente chamado de Deus.

"Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores." - Romanos 5.8

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Não concordo, mas pode defender seu ponto de vista

Voltaire, o grande filósofo do Iluminismo, disse algo como, "Não concordo com uma única palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo". Esta é uma das características mais marcantes do que chamamos democracia: o respeito à opinião alheia. Antes de um regime político, até mal definido, democracia significa liberdade.
Esta frase de Voltaire veio-me à memória nestes dias em que por causa de um "filme" - segundo consta, muito ruim - , muçulmanos de todo o mundo têm saído às ruas a fim de não só protestar, mas de exigir do governo norte-americano providências no sentido de proibir sua exibição, não só em cinemas (como se fosse possível), mas também pelo Youtube.
Em que pese o possível exagero dos que se julgam ofendidos, consideremos a insanidade de quem fez um filme provocativo, além de ostentar gosto duvidoso, segundo quem a ele assistiu.
Muçulmanos do mundo inteiro têm em Maomé o único profeta de Alá. Sua representação pictórica ou em filmes é rigorosamente proibida nos países islâmicos, que consideram desobediência a este preceito blasfêmia punível com a morte.
Carlos Novaes, cientista político, que divide a bancada com a Maria Cristina Poli no Jornal da Cultura (Canal 2) - São Paulo, a respeito, salientou algo digno de nota: disse ele que personalidades ou objetos sagrados só o são para quem neles acredita, não sendo ponderável, portanto, que se proíbam críticas a que culto, personalidade ou religião se apresente. Exceto para quem neles crê, qualquer símbolo religioso só é sagrado para o adepto daquela confissão religiosa. Qual o significado da cruz para um muçulmano, um budista, ou mesmo um ateu? Nenhum. Exceto que dentro dos princípios da democracia, todos devem respeitar símbolos e crenças dos demais. 
Carlos Novaes posicionou-se favorável a que símbolos e crenças religiosos sejam, sim, discutidos, não tendo qualquer sentido proibir-se a livre manifestação de pensamento por ferir suscetibilidades alheias. Exageros à parte, Novaes está coberto de razão. 
Nos países islâmicos é terminantemente proibida a pregação de religiões outras, que não o Islamismo. Enquanto isso, muçulmanos estrangeiros em países ocidentais exigem o direito ao uso do véu e até mesmo da burka por parte de quem assim o desejar. Dois pesos e duas medidas.
É sabido, ainda, que padres e pastores protestantes são até mesmo condenados à morte pelo fato de, na convivência com os naturais dos países muçulmanos em que passaram a morar, muitas vezes até por dever de ofício, recebem a "conversão" de muçulmanos à fé cristã, conversão proibida pelas rígidas leis islâmicas.
E enquanto isso, de mudança para países cristãos, gozam de plena liberdade de culto, de construir suas mesquitas e, mesmo, exercer forte trabalho proselitista.
O Cristianismo e seus símbolos, a Cruz, a Bíblia, as imagens de santos têm sido desrespeitados e vilipendiados por todos os lados nas sociedades ocidentais. Jesus já foi acusado de manter relacionamento homossexual com João, o discípulo amado. Dan Brown, em sua obra O Código Da Vinci, defende a tese de que no célebre quadro A Santa Ceia, é Maria Madalena, e não o discípulo João, a pessoa que reclina a cabeça no colo de Jesus. Seria ela, sua esposa. Vai mais além: Jesus teria sido casado com Madalena, com quem teve uma filha, e que ambas, após a morte de Jesus (descartada sua ressurreição) teriam sido obrigadas a fugir, refugiando-se na França, sob a proteção dos druidas, espécie de feiticeiros.
Na remota possibilidade de ser verdadeira tal assertiva, isso representaria uma reviravolta absolutamente radical no Cristianismo, tal como o conhecemos. Jesus teria simplesmente morrido, como qualquer ser humano, seus discípulos se teriam revelado cruéis ao perseguir a escolhida por Jesus, além da própria filha, o que colocaria homens humildes, pescadores em sua maioria, na incômoda posição de algozes e calculistas frios, além de colocar a filha de Jesus com Madalena como neta de Deus!
Sacrilégio! Gritariam alguns, escandalizados.
Revolucionário, hippie, desajustado, louco, esquizofrênico, usurpador, entre tantos outros títulos nada respeitosos têm alcunhado aquele que um dia, deixou a glória que tinha junto ao Pai, bem como sua posição de divindade, a fim de viver a vida comum de homem, e acabar morto numa cruz, a mais infame, vergonhosa, ignominiosa forma de executar criminosos da pior espécie, reservada a assassinos, terroristas, estupradores, e por aí afora.
A fé cristã, porém, segundo a narrativa bíblica, coloca essa execução como vicária, isto é, substitutiva. Jesus, para o cristão, estava substituindo o homem, pecador, na cruz. Assim agiu, para livrar o ser humano de castigo semelhante, livrando-o, assim da pena por se ter tornado pecador. E uma vez consumada sua execução, o homem foi tornado livre da pena.
Parece loucura? Insanidade? Não para o cristão. No entanto, todas as denominadas "blasfêmias" de que têm sido rotuladas diferentes visões do Cristo e de sua missão por aqui, não têm gerado senão democráticos protestos por parte de seus seguidores. Mesmo que consideremos que boa parte da chamada Crtistandade gostaria de impedir pela força da lei, tais concepções acusadas de sacrílegas.
Paremos por um pouco e pensemos. Como cristãos (para quem o é): Jesus precisa de quem o defenda? Ou será que não temos fervor religioso suficiente para lutar e impedir que o nome de Jesus Cristo continue sendo vilipendiado mundo afora?
Se atentarmos, porém, para os ensinamentos do próprio Jesus, não contra-atacaríamos, exatamente como se tem feito. Não necessariamente por seguirmos tais ensinamentos.
"Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: Não resistais ao perverso; mas a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas." - Ensino de Jesus Cristo em Seu Sermão do Monte - Evangelho de Mateus 5.38 a 41
Jesus comportou-se ató o fim da forma como ensinou, pregou e viveu. Diante do pusilânime, oportunista governador romano, Pôncio Pilatos, que incita Jesus a defender-se das acusações feitas, Jesus responde:
"O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui." - Evangelho de João, 18.36
Ao longo da História, o mundo tem sido palco de guerras terríveis, muitas vezes entre povos irmãos, como agora, na Síria. A Guerra Civil Espanhola é outro triste exemplo de guerra fratricida. A luta milenar entre judeus e palestinos, bem como outras guerras, como entre bascos e espanhóis, irlandeses e ingleses, etc., poderiam ter desfecho radicalmente oposto se os ensinamentos de Cristo - aliás ignorados pela própria Igreja - fossem seguidos e vividos.


                    

quinta-feira, 9 de agosto de 2012


PARAGUAI, MERCOSUL E A DEMOCRACIA


O Paraguai permanece tratado como mendigo pelas "potências" vizinhas. Pode-se considerar que o processo - meio para o sumário - da destituição de Fernando Lugo da Presidência do Paraguai foi curto demais, que não teria havido tempo hábil para que ele pudesse defender-se, etc.

Tem somente um "pequeno" detalhe: tudo ocorreu rigorosamente dentro das leis do país, numa espécie de misto entre regime presidencialista e regime parlamentarista (com seu voto de desconfiança). Os trâmites legais, porém, foram contemplados.

Não ocorreu (possivelmente porque não tenha interessado) aos demais membros do Mercosul, que decidiram pela suspensão do Paraguai, que estavam "julgando" um país soberano, agindo dentro das leis do país, que podem, sim, ser consideradas anti-democráticas, mas que fazem parte da sua Constituição.

Talvez tenham se aproveitado da situação inusitada em que se encontrava o país para introduzir Hugo Chavez no Mercosul. Não atentaram, não levaram em conta os artigos do acordo, que exigem unanimidade na admissão de membros novos. E o Paraguai foi suspenso; não foi expulso.

Outra cláusula do Mercosul exige democracia dos integrantes do bloco. E passando por cima dessa evidência grosseira, admitiram como membro pleno um país que tem violado sistematicamente as mais elementares regras da democracia, ao impor severa censura à imprensa e demais meios de comunicação; que remaneja maliciosamente distritos eleitorais, a fim de propiciar a vitória do chavismo; que aparelhou cinicamente o próprio Judiciário venezuelano. 

Diz-se que a Venezuela tem governo democrático porque realiza eleições. Ora, eleições são realizadas nos países mais ditatoriais e totalitários do mundo: Coréia do Norte, Cuba, Irã, Arábia Saudita (a despeito da monarquia), como eram realizadas na Alemanha Nazista, na União Soviética, etc.

Somente eleições não caracterizam, nem podem caracterizar democracia. Além de eleições e de imprensa livre, que garanta liberdade de opinião, há de ter também instituições igualmente democráticas, com garantias plenas de funcionamento, Judiciário independente, Legislativo idem. 

O jornal O Estado de São Paulo do último domingo, 5 de agosto de 2012, traz à página A 12, interessante entrevista com Federico Franco, Presidente Paraguaio, que faz análise muito oportuna da situação.

Apenas para refletirmos um pouquinho: quem é a Argentina (que tenta sufocar a imprensa, impedindo jornais de importar papel), para arrogar-se o direito de acusar o Paraguai de não democrático? E a Venezuela? Mesmo o Brasil, afundado até o pescoço em escândalos de corrupção, violência policial, insegurança pública em virtude de leis lenientes, que expõem a parcela sadia e honesta da população a ataques de bandidos, sistematicamente postos em liberdade, em nome de uma questionável ressocialização?

 Quem conferiu legitimidade e forneceu atestado de idoneidade moral aos nossos países para julgar decisões políticas que até podem ser questionadas, mas que estão dentro do arcabouço jurídico e constitucional (consequentemente, legal) de um país soberano?

E por que esses mesmos argumentos não foram utilizados para Ahmed Armadinejad, Presidene do Irã? 

segunda-feira, 30 de julho de 2012


JOÃO UBALDO RIBEIRO
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Não sirvo, sirvo-me

29 de julho de 2012 | 3h 11

JOÃO UBALDO RIBEIRO - O Estado de S.Paulo
Acho que todo mundo já se intrigou, ou se intriga a cada dia, com a constatação de que a vida pública, segundo os que exercem o poder político, é duríssima e exige todo tipo de sacrifício e, não obstante, ninguém que está no poder quer deixá-lo. É um paradoxo curioso e não duvido que, entre parlamentares, por exemplo, exista quem tenha a cara de pau de afirmar que com isso se demonstra o espírito cívico do brasileiro, disposto a doar a própria vida à nação, pois, conforme está no Hino Nacional, quem adora a pátria não teme a própria morte, quanto mais algumas inconveniências perfeitamente suportáveis para um espírito forte, determinado e norteado por ideais.
Estamos fartos de saber que é tudo mentira e enrolação safada e que, entre nós, o habitual para quem chega ao poder, em qualquer dos níveis da federação, é furtar de todas as formas concebíveis, desde material de escritório a verbas públicas, direta ou indiretamente, ou se beneficiar de sua condição de maneira indevida, seja por meio de privilégios legais mas indecentes, imorais e abusivos, seja por tráfico de influência. Ninguém tem ideal nenhum e muito menos se organiza em grupos ou partidos para procurar fazer valer princípios ou visar ao bem comum. O negócio aqui no Brasil é se fazer e tirar do mandato ou cargo público o maior proveito pessoal possível e todos os partidos obedecem a um mesmo manual de conduta, partido aqui não quer dizer nada.
O poder engorda e os poderosos vivem bem-dispostos e cevados, com todos os dentes. Nenhum deles, evidentemente, admite que se apropria criminosamente do que não lhe pertence ou se aproveita de vantagens ilegítimas. Mas a parentela viceja e o patrimônio prospera. Quantos, por este nosso Brasil afora, não são conhecidos em suas cidades como habilidosíssimos ladrões, que nasceram em famílias para lá de mal remediadas e hoje estão entre as grandes fortunas dos Estados de onde vieram, ou mesmo do Brasil? Ou, se não estão entre as grandes fortunas, se encontram entre os mais bem aquinhoados, com terreninhos, fazendinhas, apartamentozinhos e a família toda "colocada".
E também, apesar dos percalços da vida pública, o poder com toda a certeza libera endorfinas formidáveis, de modo que seus ocupantes têm o riso fácil, são generosos e de boa convivência, em paz com a vida. Não sei se contribui para isso o fato de que os mais poderosos entre eles não têm, nem nunca vão ter, problemas de moradia, problemas de aposentadoria ou problemas de tratamento de saúde, nunca entraram numa fila, nunca precisaram penar à porta de repartição nenhuma, nunca tiveram que se preocupar com o futuro e ficarão impunes, com a fortuna intacta, não importa em que falcatruas sejam pilhados. É, deve favorecer um pouco a calma e a tranquilidade deles.
Já nos acostumamos a ver os nossos governantes - e lembro que parlamentar, seja senador, seja deputado estadual ou federal, assim como vereadores, é governante - serem qualificados de larápios e ninguém mais se espantar, ou mesmo se interessar, quando alguém comenta que o governador Fulano é ladrão, o deputado Sicrano levou comissão em todas as obras de seu reduto eleitoral, o prefeito Beltrano tomou uma grana pesada de empreiteiras e imobiliárias, o desembargador Como-é-nome vendeu duas dúzias de sentenças a peso d'oiro, o vereador Unha Grande cobra por serviços legislativos e por aí vai, qualquer compatriota sabe essas coisas de cor, parecem fazer parte de nossa identidade. Talvez simbolicamente, pelo menos um governante nosso, o lulista Paulo Maluf, está sendo procurado pela Interpol e, se sair do Brasil, vai preso. Em verdade lhes digo: Não se fará justiça enquanto essa lista da Interpol não contiver alguns milhares de nomes genuinamente brasileiros.
Somos assim desde o nosso começo. Em nossa vida pública, muito raramente servir foi a diretriz, servir-se tem sido a norma. Nos Estados Unidos, por exemplo, o governo, diferentemente daqui, não costuma ocupar as principais manchetes. E as capitais, para surpresa de muitos, não são, como no Brasil, as maiores cidades de cada Estado. Ao contrário, são cidades pequenas, destituídas de qualquer glamour e sem nada do movimento das grandes metrópoles. Aqui não, aqui, como se gravita em torno do Estado e do poder, onde o Estado se mete em tudo e a burocracia parasítica e dispendiosa, a ganância fiscal, a roubalheira e a ineficiência fazem parte de um aparato secularmente estabelecido, as capitais são de longe as maiores cidades.
Hoje deve ser mais fácil roubar do que há relativamente poucos anos. A máquina do Estado tornou-se um Leviatã disforme e teratoide, em que ninguém de fato se entende, nem lhe conhece os labirintos institucionais e jurídicos. O dinheiro é cada vez mais volátil e portável pelos ares, ninguém sabe o tamanho e as ramificações dos tentáculos da corrupção e ainda moramos num país com muitos municípios onde, se quiser, o prefeito saca o dinheiro do governo, enfia-o na algibeira e se pirulita para sempre, já aconteceu. Ou às vezes é pegado, mas não dá em nada, o processo rola indefinidamente, o senador Esse-Menino é padrinho do rapaz, o juiz é gente do senador, a acusação faz corpo mole e, sabem como são essas coisas, o pessoal acaba esquecendo e não é nem impossível que o indigitado, munido da bênção do padrinho de um punhado de ordens judiciais, se eleja prefeito novamente.
Por essas razões e por outras, não deve causar espanto anunciarem tanto dinheiro para conquistar prefeituras minúsculas e inexpressivas. Compra-se em grosso, é exigência da economia criada em torno das eleições, que envolve muitas atividades. Não tem nada a ver com o interesse público. Bem verdade que quem acaba pagando somos nós, mas foi combinado que não faz parte da democracia brasileira dar palpite sobre como gastam nosso dinheiro.

Não sei quem é o autor, mas só sei que essa é uma coisa boa de ler...

Coisa

A palavra "coisa" é um Bombril do idioma. Tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma idéia. Coisas do português.
A natureza das coisas: gramaticalmente, "coisa" pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma "coisificar". E no Nordeste há "coisar": "Ô, seu coisinha, você já coisou aquela coisa que eu mandei você coisar?".
Coisar, em Portugal, equivale ao ato sexual, lembra Josué Machado. Já as "coisas" nordestinas são sinônimas dos órgãos genitais, registra o Aurélio. "E deixava-se possuir pelo amante, que lhe beijava os pés, as coisas, os seios" (Riacho Doce, José Lins do Rego). Na Paraíba e em Pernambuco, "coisa" também é cigarro de maconha.
Em Olinda, o bloco carnavalesco Segura a Coisa tem um baseado como símbolo em seu estandarte. Alceu Valença canta: "Segura a coisa com muito cuidado / Que eu chego já." E, como em Olinda sempre há bloco mirim equivalente ao de gente grande, há também o Segura a Coisinha.
Na literatura, a "coisa" é coisa antiga. Antiga, mas modernista: Oswald de Andrade escreveu a crônica O Coisa em 1943. A Coisa é título de romance de Stephen King. Simone de Beauvoir escreveu A Força das Coisas, e Michel Foucault, As Palavras e as Coisas.
Em Minas Gerais , todas as coisas são chamadas de trem. Menos o trem, que lá é chamado de "a coisa". A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz:"Minha filha, pega os trem que lá vem a coisa!".
Devido lugar: "Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça (...)". A garota de Ipanema era coisa de fechar o Rio de Janeiro."Mas se ela voltar, se ela voltar / Que coisa linda / Que coisa louca." Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas.
Sampa também tem dessas coisas (coisa de louco!), seja quando canta "Alguma coisa acontece no meu coração",de Caetano Veloso, ou quando vê o Show de Calouros, do Silvio Santos (que é coisa nossa).
Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim!
Coisa de cinema! A Coisa virou nome de filme de Hollywood, que tinha o seu Coisa no recente Quarteto Fantástico. Extraído dos quadrinhos, na TV o personagem ganhou também desenho animado, nos anos 70. E no programa Casseta e Planeta, Urgente!, Marcelo Madureira faz o personagem "Coisinha de Jesus".
Coisa também não tem tamanho. Na boca dos exagerados, "coisa nenhuma" vira "coisíssima". Mas a "coisa" tem história na MPB. No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, estava na letra das duas vencedoras: Disparada, de Geraldo Vandré ("Prepare seu coração / Pras coisas que eu vou contar"), e A Banda, de Chico Buarque ("Pra  ver a banda passar / Cantando coisas de amor"), que acabou de ser relançada num dos CDs triplos do compositor, que a Som Livre remasterizou.         Naquele ano do festival, no entanto, a coisa tava preta (ou melhor, verde-oliva). E a turma da Jovem Guarda não tava nem aí com as coisas: "Coisa linda / Coisa que eu adoro".
Cheio das coisas. As mesmas coisas, Coisa bonita, Coisas do coração, Coisas que não se esquece, Diga-me coisas bonitas, Tem coisas que a gente não tira do coração. Todas essas coisas são títulos de canções interpretadas por Roberto Carlos, o "rei" das coisas. Como ele, uma geração da MPB era preocupada com as coisas.
Para Maria Bethânia, o diminutivo de coisa é uma questão de quantidade (afinal,"são tantas coisinhas miúdas"). Já para Beth Carvalho, é de carinho e intensidade ("ô coisinha tão bonitinha do pai"). Todas as Coisas e Eu é título de CD de Gal. "Esse papo já tá qualquer coisa...Já qualquer  coisa doida dentro mexe." Essa coisa doida é uma citação da música Qualquer Coisa, de Caetano, que canta também: "Alguma coisa está fora da ordem."
Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, pois uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal coisa, e coisa e tal. O cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. O cheio das coisas, por sua vez, é o sujeito estribado. Gente fina é outra coisa. Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma.
A coisa pública não funciona no Brasil. Desde os tempos de Cabral. Político quando está na oposição é uma coisa, mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura. Quando se elege, o eleitor pensa: "Agora a coisa vai." Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma. Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas!
Coisa à  toa. Se você aceita qualquer coisa, logo se torna um coisa qualquer, um coisa-à-toa. Numa crítica feroz a esse estado de coisas, no poema Eu, Etiqueta, Drummond radicaliza: "Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa, coisamente." E, no verso do poeta, "coisa" vira "cousa".
Se as pessoas foram feitas para ser amadas e as coisas, para ser usadas, por que então nós amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas? Bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas. Há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, alegria e outras cositas más.
Mas, "deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida", cantarola Fagner em Canteiros, baseado no poema Marcha, de Cecília Meireles, uma coisa linda. Por isso, faça a coisa certa e não esqueça o grande mandamento: "amarás a Deus sobre todas as coisas".

ENTENDEU O ESPÍRITO DA COISA?

quinta-feira, 26 de julho de 2012

O TAPETINHO VERMELHO

Uma pobre mulher morava em uma casinha muito humilde com sua neta, que estava muito doente. Como não tinha dinheiro para levá-la a um médico, e vendo que apesar de seus muitos cuidados, a pobre menina piorava a cada dia, com muita dor de coração, preocupada, resolveu deixá-la sozinha e ir à pé até a cidade mais próxima, em busca de ajuda.

No único hospital público da região, foi-lhe dito que os médicos não poderiam deslocar-se até sua casa. Ela teria que trazer a menina para ser examinada. Desesperada por saber que sua neta não conseguiria sequer levantar-se da cama, e ela, já idosa, não teria forças para tal, empreendeu o caminho de volta para casa, sem saber o que fazer.

Voltando para casa, passou em frente a uma igreja e resolveu entrar. Algumas senhoras estavam ajoelhadas fazendo suas orações. Ela ajoelhou-se também. Ouviu as orações daquelas mulheres, e quando teve oportunidade, orou também:

"Olá, Deus, sou eu, a Maria. Olha, a minha neta está muito doente. Eu gostaria que o Senhor fosse até lá, curá-la. Por favor, Deus, anote aí o endereço."

As demais senhoras estranharam o jeito daquela oração, mas continuaram ouvindo.

"É muito fácil. É só o senhor seguir o caminho das pedras, e quando passar o rio com a ponte, o Senhor entra na segunda estradinha de terra. Passando a vendinha, a minha casa é a última, um barraco."

As senhoras que tudo acompanhavam esforçavam-se para não rir. Ela continuou:

"Olha, Deus, a porta tá trancada, mas a chave fica embaixo do tapetinho vermelho, na entrada. Por favor, Senhor, cure a minha netinha, pois ela é o único bem que possuo. Obrigada."

E quando todas achavam que ela já havia terminado, ela completou:

"Ah! Senhor, por favor, não se esqueça de colocar a chave de novo embaixo do tapetinho vermelho, se não eu não consigo entrar em casa. Muito obrigada. Obrigada mesmo."

Depois que a Dona Maria se foi, as demais senhoras soltaram o riso e ficaram comentando como é triste descobrir que as pessoas nem sabem orar de forma conveniente. 

Quando Dona Maria chegou em casa, porém, não pôde conter-se de tanta alegria, ao ver a menina sentada no chão, brincando com suas bonecas.

"Menina, você já está de pé?!?"

E a menina, abrindo um sorriso, disse para a avó:

"Um médico esteve aqui, vovó. Disse que veio a seu pedido. Deu-me um beijo na testa e disse que eu ia ficar boa, e eu fiquei. Ele era tão bonito, vovó! Sua roupa era tão branquinha que até brilhava! Ah! Ele mandou lhe dizer que foi fácil achar a nossa casa e que ia deixar a chave debaixo do tapetinho vermelho, conforme você pediu."

Que Deus nos ajude a sermos simples em nossas orações.

Esta é somente uma ilustração, uma história, mas mostra uma grande verdade. Em nossa religiosidade artificial, achamos que para falar com Deus precisamos usar palavras bonitas e apropriadas, como uma linguagem diplomática. Durante séculos aprendemos a dirigir a Deus orações difíceis e, muitas vezes, rebuscadas, embora destituídas do verdadeiro sentimento de adoração e dependência de Deus. 

O Judaísmo, que nos legou o Cristianismo, sempre colocou Deus em um alto e sublime trono, sem atentar para o fato de que nessa concepção, Deus se torna formal e distante. Embora a Palavra de Deus coloque Deus num trono, não se furta a mostrá-lO como Alguém que ouve e se interessa pelas pessoas.

"Amo ao Senhor, porque ele ouviu a minha voz e a minha súplica. Porque inclinou para mim os seus ouvidos; portanto, invocá-lo-ei enquanto viver."  -  Salmo 116.1 e 2

Acostumados a "ver" Deus num trono, os homens têm dificuldade em concebê-lO próximo ao homem. 
E foi exatamente por isso que ao ensinar a oração do Pai Nosso, Jesus usou a palavra aramaica Abba, que significa papai. Era com essa palavra que as crianças dirigiam-se aos seus papais em casa. E foi assim que Jesus ensinou.


Deus realmente "mora" num lugar alto e sublime, o que não o torna inacessível ao homem.


"Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e vivificar o coração dos contritos." - Isaías 57.15


quarta-feira, 25 de julho de 2012


Pioneira da agroecologia receberá prêmio mundial

22 de julho de 2012 | 9h 23 - Tânia Rabelo para O Estado de São Paulo

A modéstia permeia as declarações da engenheira agrônoma Ana Primavesi quando ela se refere ao One World Award - o principal prêmio da agricultura orgânica mundial, conferido pela International Federation of Organic Agriculture Movements (Ifoam). Neste ano, foi ela a escolhida para receber a homenagem, na Alemanha.
"Eles distribuem o prêmio entre os vários continentes. Agora, foi a vez da América do Sul", comenta uma das precursoras do movimento orgânico no Brasil. "Estão me premiando por toda parte... Não sei para que isso", acrescenta, quase encabulada.
E ouve, em seguida, que a homenagem que receberá no dia 14 de setembro, com a participação de mais de mil pessoas, entre elas a vencedora do prêmio Nobel Alternativo da Paz, a indiana Vandana Shiva, é mais do que merecida, pelo trabalho que vem fazendo, há 65 anos, pela agricultura ecológica, auxiliando lavradores a tornarem suas terras produtivas e limpas, em harmonia com o ambiente, eliminando o uso de agrotóxicos e adubos químicos.
"Pois é... Pelo jeito...", sorri Ana Primavesi, que arremata: "Dizem que eu inventei a agricultura orgânica. Conscientemente, não. A gente sempre trabalhou dessa forma".
Impactos positivos
Instituído em 2008, o One World Award é conferido a cada dois anos a ativistas da agricultura orgânica no mundo. São pessoas cujo trabalho impacte positivamente a vida dos produtores rurais.
Em 2008, quem ganhou o prêmio foi o veterinário e professor alemão Engelhard Boehncke, por suas práticas e estudos em relação à criação orgânica de animais. Há dois anos, foi a vez do indiano pioneiro em agricultura orgânica Bhaskar Salvar, que, logo no início da década de 1950, contrapôs-se à
Revolução Verde - que inaugurou o uso de adubos sintéticos e agrotóxicos nas lavouras -, ensinando agroecologia aos produtores, com o uso de fertilizantes orgânicos, a manutenção da vida no solo e o fortalecimento das plantas por meio de um ambiente equilibrado.
Neste ano, Ana Primavesi será a agraciada. Aos 92 anos, austríaca naturalizada brasileira, formada pela Universidade Rural de Viena, é Ph.D. em Ciências Agronômicas e especializada em vida dos solos. Publicou vários artigos científicos e livros sobre o assunto, mas um deles, Manejo Ecológico do Solo (Editora Nobel, 552 páginas, reeditado mais de 20 vezes), é uma das bíblias da produção orgânica e leitura obrigatória nas faculdades de Agronomia do País.
A obra é citada no livro Plantas Doentes pelo Uso de Agrotóxicos, de Francis Chaboussou, no qual prova que pragas e doenças não atacam plantas cujos sistemas estejam equilibrados. E que são os adubos químicos e os agrotóxicos que atraem os parasitas, gerando um ciclo de dependência, com nefastas consequências para o planeta.
Preservação
Desde 1947, quando iniciou sua vida profissional, e por meio de aulas na Universidade Federal de Santa Maria (RS), Ana Primavesi vem batendo na tecla da preservação da vida no solo. Em aulas, palestras, conferências, debates, assistências técnicas diretas aos produtores rurais e a suas associações, a engenheira agrônoma repete frases que se tornaram mantras.
E quem as coloca em prática vê os resultados na produção, na preservação e na saúde de quem planta e de quem consome os alimentos agroecológicos: "O segredo da vida é o solo, porque do solo dependem as plantas, a água, o clima e nossa vida. Tudo está interligado. Não existe ser humano sadio se o solo não for sadio e as plantas, nutridas."
Observação
Tanto que a primeira coisa que ensina aos agricultores que a procuram é olhar para a terra. "Se o solo tem uma boa estrutura, o agricultor tem grande chance de modificá-lo e convertê-lo para a agricultura orgânica", diz. "Terra com boa estrutura forma grumos, que nada mais são que o entrelaçamento de microrganismos que conferem vida ao solo e saúde às plantas, além de permitirem a infiltração da água. Em solos compactados e sem vida, água vira enxurrada e provoca erosão."
Ana Primavesi lembra que uma planta precisa de no mínimo 45 nutrientes para se desenvolver e produzir de forma saudável. "A agricultura convencional dá, no máximo, 15 desses nutrientes para as plantas. E nem sempre esses 15 nutrientes são integralmente ministrados às lavouras convencionais", diz.
O resultado são plantas deficientes nutricionalmente e frágeis aos ataques de pragas e doenças, dependentes, portanto, do uso de agrotóxicos.
É justamente a maneira de devolver esses nutrientes ao solo que Ana Primavesi ensina aos agricultores. Ela lembra de agricultores na cidade de Diamantina, em Minas Gerais, que há cerca de 15 anos a procuraram porque já não conseguiam produzir com o pacote convencional.
"Eles estavam a desanimados, quase falindo, porque a cada ano a terra respondia menos às adubações", conta. "Começamos a melhorar o solo e a qualidade dos nutrientes, passando a aplicar adubações orgânicas", continua. "Demorou uns quatro a cinco anos, mas agora eles produzem com fartura. Há uns anos voltei lá e vi como estavam felizes com a produção orgânica", conta Ana, ressaltando que a recompensa sempre vem. "O problema é que ela não é rápida, e muitos desistem."