segunda-feira, 26 de agosto de 2013


ESSE TIPO DE AMOR...OS JOVENS NÃO CONHECEM!!!

LINDISSÍMO.................. 

Um famoso professor se encontrou com um grupo de jovens que falava contra o casamento. Argumentavam que o que mantém um casal é o romantismo e que é preferível acabar com a relação quando este se apaga, em vez de se submeter a triste monotonia do matrimônio.
O mestre disse que respeitava sua opinião, mas lhes contou a seguinte história:
“Meus pais viveram 55 anos casados. Numa manhã, minha mãe descia as escadas
para preparar o café e sofreu um infarto. Meu pai correu até ela, levantou-a como pôde e, quase se arrastando, a levou até a caminhonete.
Dirigiu a toda velocidade até o hospital, mas quando chegou, infelizmente ela já estava morta. Durante o velório, meu pai não falou. Ficava o tempo todo olhando para o nada. Quase não chorou!
Eu e meus irmãos tentamos, em vão, quebrar a nostalgia recordando momentos engraçados. Na hora do sepultamento, papai, já mais calmo, passou a mão sobre o caixão e falou com sentida emoção:
- Meus filhos, foram 55 bons anos… Ninguém pode falar do amor verdadeiro, se não tem ideia do que é compartilhar a vida com alguém por tanto tempo.
Ele fez uma pausa, enxugou as lágrimas e continuou:
- Ela e eu estivemos juntos em muitas crises. Mudei de emprego, renovamos toda a mobília quando vendemos a casa e mudamos de cidade. Compartilhamos a alegria de ver nossos filhos concluírem a faculdade, choramos um ao lado do outro quando entes queridos partiam. Oramos juntos na sala de espera de alguns hospitais, nos apoiamos na hora da dor, e perdoamos nossos erros…
Filhos, agora ela se foi e estou contente. E vocês sabem por quê? Porque ela se foi antes de mim, e não teve que viver a agonia e a dor de me enterrar, de ficar só depois da minha partida. Sou eu que vou passar por essa situação, e agradeço a Deus por isso. Eu a amo tanto, que não gostaria que sofresse assim.
Quando meu pai terminou de falar, meus irmãos e eu estávamos com os rostos cobertos de lágrimas. Nós o abraçamos e ele nos consolava, dizendo : “Está tudo bem, meus filhos, podemos ir para casa.”
E por fim, o professor concluiu: “Naquele dia, entendi o que é o verdadeiro amor. Está muito além do romantismo, e não tem muito a ver com o erotismo, mas se vincula ao trabalho e ao cuidado a que se professam duas pessoas realmente comprometidas.”
Quando o mestre terminou de falar, os jovens universitários não puderam argumentar, pois esse tipo de amor era algo que não conheciam. O verdadeiro amor se revela nos pequenos gestos, no dia-a-dia e por todos os dias. O verdadeiro amor não é egoísta, não é presunçoso, nem alimenta o desejo de posse sobre a pessoa amada.
“Quem caminha sozinho, pode até chegar mais rápido. Mas aquele que vai acompanhado, com certeza, chegará mais longe, e terá a indescritível alegria de compartilhar alegria… alegria esta, que a solidão nega a todos que a possuem”
Ricardo Caodaglio

Imaginem se conseguissem enxergar (para não dizer "acreditar") no amor de Deus, que entregou o próprio Filho por nós...

quarta-feira, 29 de maio de 2013

O AMIGO JUDEU DO PAPA FRANCISCO

O rabino argentino destrincha as ideias de Francisco, seu companheiro de conversas há duas décadas, sobre a punição aos padres pedófilos, o casamento gay e o radicalismo religioso

Esta matéria foi veiculada nas páginas amarelas de Revista Veja, edição 2323 de 29 de maio de 2013. Considerando a importância das personalidades envolvidas - o papa Francisco e o rabino Abraham Skorka, ambos argentinos - resolvi copiá-la e transcrevê-la, o que faço a seguir.

Poucos entendem tão bem a mente do líder da Igreja Católica quanto este rabino argentino. Quando o papa Francisco ainda era apenas Jorge Mario Bergoglio e pregava na Catedral de Buenos Aires, entretinha-se em longas conversas com o amigo Abraham Skorka. Nos dias em que os encontros tinham lugar na sinagoga, Skorka oferecia copos de água  e croissants. Quando ocorriam no escritório de Bergoglio, os petiscos eram biscoitos amanteigados. Caseiros, claro. "Meu amigo sabe que eu só como alimentos kasher e se preocupava em me receber com quitutes preparados dentro das normas judaicas", conta Skorka, que conhece o agora papa há duas décadas. Em 2010, os bate-papos entre eles foram publicados no livro Sobre o Céu e a Terra. A amizade continua, mas com restrições protocolares. "Quando eu for a Roma, ele não poderá passear comigo nem sair para tomar um café", resigna-se o rabino. O projeto de um segundo livro a quatro mãos foi deixado de lado.
De Buenos Aires, Skorka conversou com VEJA por telefone.

No livro Sobre o Céu e a Terra, o cardeal Bergoglio, hoje papa Francisco, diz que é contra o casamento gay, mas é tolerante com a prática homossexual. O que ele quis dizer com isso?
Nada além disso. A Bíblia não aceita a homossexualidade. No entanto, Francisco e eu vivemos e apoiamos a realidade democrática, que preza o direito de escolha de cada um. Nós sempre estivemos abertos para escutar os hemossexuais. Quando alguém se aproxima e diz "Eu sinto assim e amo dessa maneira", nós respeitamos e dizemos que não temos resposta para a sua condição. Se duas pessoas se encontram por meio de um vínculo homossexual e desejam firmar um contrato, não nos opomos. Concordamos com um contrato do ponto de vista material, de direitos e obrigações. Todos têm o direito de escolha, desde que isso não prejudique os demais. O que rejeitamos é que esse acordo seja chamado de casamento ou que haja uma opção que envolva filhos. Isso seria o que Bergoglio denominava retrocesso antropológico.

O que seria um retrocesso antropológico?
Quando se leem O Futuro de uma Ilusão, do austríaco Sigmund Freud, e certas obras do francês Claude Lévi-Strauss sobre as normas de parentesco, aprende-se que as barreiras que freiam nossos impulsos são necessárias. O incesto, assim como a atitude sexual em geral, deve ser submetido a regras. Por meio dessas leis é que o homem pode formar uma cultura. No momento em que alguém mexe na essência dessas regras, passa-se a corroer as bases, as proibições e as barreiras graças às quais foi possível formar o que conhecemos como cultura humana. Essa ideia aparece claramente quando Lévi-Strauss fala das normas do incesto, justamente no Brasil, em um de seus livros. Freud diz a mesma coisa em seus últimos artigos, escritos na década de 30.

O papa Francisco deve mudar alguma diretriz da Igreja Católica  a respeito da homossexualidade?
Esse assunto deve ficar como está, porque não existem respostas. O cristianismo não tem resposta, o judaísmo também não. É uma norma que aparece na Bíblia, é parte do credo. Todas as normas referentes à sexualidade são questões de fé. Por que certos parentescos são lícitos e outros são proibidos? Um tio pode casar-se com uma sobrinha, mas uma tia não pode ficar com um sobrinho. Por que é assim? Porque está na Bíblia. Não há uma razão. Nem sequer podemos explicar isso de outro ponto de vista. Essas são normas, e elas são uma questão de fé.

Como eram as pregações de Francisco aos gays?
Ele me contou uma vez que tratava de ajudá-los  para que não caíssem na promiscuidade e enfrentassem a situação da melhor maneira possível. Os cuidados para evitar a promiscuidade valem tanto para homossexuais quanto para heterossexuais.

Francisco recriminou o lucro a "qualquer preço", mas também rejeitou o marxismo. O que isso nos diz sobre ele?
O papa acredita que os extremos são ruins. Por um lado, um capitalismo selvagem no qual existam milhões de pessoas sem poder levar uma vida digna é incorreto. Por outro, o poder todo concentrado nas mãos do estado também é errado. O estado não é um ente abstrato. É constituído por homens. Não é certo então que alguns tenham um poder gigantesco e outros, nada, como no comunismo. A experiência soviética demonstrou que o comunismo não é viável. O estado, é claro, deve ter uma função controladora e reguladora, ninguém duvida disso. Mas a propriedade privada deve ser respeitada. É uma das posturas bíblicas. O capítulo 25 do Levítico diz para cada um ter seu pedaço de terra e cultivá-lo.

O que o papa pensa dos governos populistas da América Latina?
Ele defende a ideia de que o estado deve se esforçar para criar melhores condições de vida para o povo. Isso não significa dar meramente o mínimo para o sustento  diário, e sim ajudar a todos em seu desenvolvimento físico e espiritual.

Em Sobre o Céu e a Terra, o papa diz que o fundamentalismo é um tipo de religiosidade rígida que nega a liberdade e impede que as pessoas cresçam. Isso implica uma nova leitura do próprio cristianismo?
Sem dúvida. Toda religião deve ser dinˆmica e ter uma atitude de busca por Deus. Ninguém pode dizer que sabe exatamente qual é a verdade e que todos devem aceitá-la ou serão destruídos. Como aparece em um versículo do livro (bíblico) do profeta Amós, Deus diz: "Busca-me e lhe direi". O diálogo, então, deve ser priorizado. O fundamentalismo, como diz Francisco, é um discurso único, em que a voz do outro não existe. Quando nós dois estudamos o tema da homossexualidade, deparamos com uma atitude com a qual não concordamos. Mas sempre dialogamos. Não podemos dizer que somos donos da verdade e ponto. A verdade de uma pessoa não pode ser posta por cima da verdade de outra.

Os senhores já tentaram explicar a força do fundamentalismo islâmico?
Não fizemos essa análise. Mas cuidado. O século XX foi cheio de fundamentalismos políticos. O nazismo, o fascismo e o comunismo, em muitas de suas versões. São fundamentalismos com manifestações pagãs. Havia um culto a Adolf Hitler. Embalsamaram o soviético Vladimir Lenin, e sua tumba virou um lugar para rituais.

Como dialogar com fundamentalistas e terroristas?
O único jeito é esperar que eles mudem de postura e aceitem a existência do outro.

Mas o papa não pode fazer nada?
Pode. Uma das maneiras é reforçar os gestos em favor da paz. Vivemos em um mundo cada vez menor e estamos mais unidos uns aos outros. Quando alguém se espiritualiza, arrasta muitos para o mesmo caminho. Se um indivíduo defende fortemente a paz, talvez muitos fanáticos possam acordar e mudar de ideia. Não digo mudar seu credo, porque não é o caso, e sim deixar de lado o fanatismo. Esse será o norte do papado de Francisco. Ele trabalhará com muita humildade e simplicidade pela paz, para levar ares de espiritualidade profundos ao seio da Igreja e cuidar para que isso chegue a todos os homens, de todas as religiões.

Por que o papa disse que o confessionário não é uma lavanderia?
A grandeza do papa do ponto de vista sacerdotal e espiritual é que ele quer resgatar o sentido profundo das tradições e dos costumes. Quando ele falou que a mera confissão não é algo em que se lavam os pecados, estava dizendo que a aceitação do erro ou o simples relato superficial não limpam, por si sós, o pecado. Deve ocorrer uma decisão profunda daquele que sabe do seu erro, para que não volte a cometê-lo. Tanto Francisco como eu nos inspiramos nas palavras dos profetas bíblicos. Eles nos ensinaram que Deus não aprecia sacrifícios se estes não são acompanhados do arrependimento, da mudança de atitude, da busca da justiça e da retificação do pecado.

O papa põe uma grande ênfase no conceito do exame individual de consciência. Não é simplificado demais?
Francisco fala em termos muito simples, mas não é por serem fáceis de entender que eles deixam de ser profundos. Suas palavras tratam da essência das coisas, de atitudes e não de mera maquiagem. O exame de consciência é uma exigência para toda pessoa espiritual. É o que nós, em hebraico, chamamos de fazer teshuvá. É retornar a Deus através de um ato de arrependimento, corrigindo os erros que cometemos. Esse é um valor básico da liturgia religiosa. Há livros inteiros na Bíblia, a começar pelo livro do profeta Jonas, que nos falam da teshuvá. Há muitos parágrafos na Torá, no Deuteronômio. Esses versículos dizem que Deus vai retornar ao povo à medida que o povo retornar a Deus.

O exame individual de consciência é uma exigência não só para as pessoas, mas também para as instituições, correto?
Toda mensagem que o papa nos passa sobre espiritualidade deriva dos profetas. Muitas delas se perderam na existência, na realidade da vida. Não são invenções dele. O que ele está fazendo é propor um retorno ao Jesus do Evangelho. O papa Francisco quer imprimir uma dimensão de espiritualidade muito forte à Igreja Católica e, a partir daí, a todos que quiserem aceitá-la. É um desafio muito grande. Outra questão é abordar todos os problemas dentro da própria Igreja, como o dos sacerdotes que cometeram abusos. Essa questão faz muito mal ao papa, à Igreja e a todos aqueles que querem transmitir uma mensagem, porque semeia a descrença entre as pessoas.

O senhor concorda com a ideia de que a não punição aos padres pedófilos é uma maneira de proteger a imagem da Igreja?
Pelo contrário. Se a Igreja retificar tudo o que precisa ser corrigido, certamente terá uma imagem muito melhor do que a que tem hoje. A tolerância com os pedófilos deve ser zero. Francisco acredita que a Igreja deve ter respostas para as angústias existenciais dos indivíduos e, ao mesmo tempo, ser um lugar de pureza profunda, e não um lugar em que se pratiquem cultos superficiais. A Igreja deve ser um espaço que abrigue um compromisso real com a justiça, a verdade, a misericórdia e tudo o que aparece no Evangelho. São valores comuns tanto ao cristianismo quanto à tradição judaica.

O papa diz que não há obrigação de preservar uma vida em condições extraordinárias, mas ele é contra a eutanásia ativa. Qual seria o limite entre essas duas circunstâncias?
A vida de cada um é sagrada e única. Mas, aqui, a última palavra deve ser da ciência. Se uma pessoa está com morte cerebral ou os exames dizem que a situação é absolutamente irreversível, então devem ser tirados lentamente os aparelhos que mantêm o coração batendo artificialmente. Os limites são os limites da ciência.

O senhor acredita que o papa realmente reabrirá a investigação sobre o papel do papa PIO XII, acusado de ter sido leniente com os nazistas?
Sim, assim ele se manifestou quando analisamos o assunto.

Mas isso foi antes de ele ser designado papa, certo?
É preciso abrir os arquivos primeiro. Ler. Analisar. Mas Francisco acredita que devemos saber a verdade e tem uma conduta única. O que ele diz ele se compromete a fazer.

Depois de escolhido papa, ele foi pessoalmente pagar a conta do hotel em que se hospedava. Qual a mensagem desse gesto?
Ele mostrou que tem os mesmos direitos e obrigações de todos os outros seres humanos.

O que o senhor diria a quem vê nessas demonstrações de humildade um certo populismo?
Francisco nunca se isolou no palácio apostólico. Ele sempre gostou de estar junto do povo, compartilhando o futebol e o tango. Isso não tem nada a ver com populismo.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Governantes e governados - João Ubaldo Ribeiro


João Ubaldo Ribeiro está entre os escritores que mais admiro na atualidade. Com seu vasto conhecimento; sua (rara) capacidade de dizer grandes verdades, desnudando a alma brasileira, mas sempre com raro humor, Ubaldo faz pensar. 

João Ubaldo Ribeiro
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Governantes e governados

05 de maio de 2013 | 2h 09
João Ubaldo Ribeiro - O Estado de S.Paulo
Essa capadoçagem burra, arrogante e irresponsável, tentada no Congresso Nacional, para intimidar e desfigurar o Poder Judiciário, mostra de novo como somos atrasados. Antigamente, éramos um país subdesenvolvido e atrasado. Fomos promovidos a emergente - embora volta e meia me venha a impressão de que se trata de um eufemismo modernoso para designar a mesma coisa - e continuamos atrasados. Nosso atraso é muito mais que econômico ou social, antes é um estado de alma, uma segunda natureza, uma maneira de ver o mundo, um jeito de ser, uma cultura. Temos pouco ou nenhum espírito cívico, somos individualistas, emporcalhamos as cidades, votamos levianamente, urinamos nas ruas e defecamos nas praias, fazemos a barulheira que nos convém a qualquer hora do dia ou da noite, matamos e morremos no trânsito, queixamo-nos da falta de educação alheia e não notamos a nossa, soltamos assassinos a torto e a direito, falsificamos carteiras, atestados e diplomas, furamos filas e, quase todo dia, para realçar esse panorama, assistimos a mais um espetáculo ignóbil, arquitetado e protagonizado por governantes.
Que coisa mais desgraciosa e primitiva, esse festival de fanfarronadas e bravatas, essa demonstração de ignorância mesclada com inconsequência, essa insolência despudorada, autoritária, prepotente e pretensiosa. Então a ideia era submeter decisões do Supremo Tribunal Federal à aprovação do Congresso, ou seja, na situação atual, à aprovação do Executivo. E gente que é a favor disso ainda tem o desplante de lançar contra os adversários acusações de golpismo. Golpismo é isso, é atacar o equilíbrio dos poderes da República, para entregar à camarilha governista o controle exclusivo sobre o destino do País. Até quem só sabe sobre Montesquieu o que leu numa orelha de livro lembra que o raciocínio por trás da independência dos poderes é prevenir o despotismo. Se eu faço a lei, eu mesmo a executo e ainda julgo os conflitos, claro que o caminho para a tirania está aberto, porque posso fazer qualquer coisa, inclusive substituir por outra a lei que num dado momento me incomode.
Hoje, muito tempo depois de Montesquieu, sistemas como o vigente nos Estados Unidos, cujas instituições políticas plagiamos na estruturação da nossa república, dependem de um equilíbrio delicado e sutil, o qual pressupõe uma formação cívica e cultural que nosso atraso nos impede de plagiar também. Uma barbaridade desse porte é praticamente impossível acontecer por lá. E isso se evidencia até no comportamento e nas atitudes de todos. Nenhum deputado americano iria blaterar contra a Suprema Corte e investir contra a integridade do Estado dessa forma. E nenhum dos magistrados sai, como aqui, dando entrevistas em toda parte e tornando-se figurinhas fáceis, cuja proximidade induz uma familiaridade incompatível com a natureza e a magnitude dos cargos que ocupam, intérpretes supremos da Constituição, última instância do Estado, capaz de selar em definitivo o destino de um cidadão ou até da sociedade. Quem já presenciou a abertura de uma sessão da Suprema Corte, em Washington, há de ter-se impressionado com a solenidade majestosa do ato e com a aura quase sacerdotal dos juízes. Aqui, do jeito que as coisas vão, chega a parecer possível que, um dia destes, a equipe de um show de televisão interrompa uma sessão do Supremo para entrevistar os ministros, com uma comediante fazendo perguntas como "que é que você usa por baixo da toga?" e Sua Excelência, olhando para o decote dela e depois piscando para a câmera, dê uma gargalhadinha e responda "passa lá em casa, que eu te mostro".
Soberana, entre as nossas manifestações de atraso, é a importância que damos à televisão. Não conheço outro país onde visitas apareçam exclusivamente para ver televisão na companhia dos visitados, ou onde se liga a televisão na sala e ninguém mais conversa. Hoje está melhor, mas, antigamente, o sujeito era convidado para dar uma entrevista e todos os funcionários da estação ou da produção o tratavam como se ele estivesse recebendo uma dádiva celestial. Do faxineiro à recepcionista, todos eram importantíssimos e eu mesmo já me estranhei com alguns, um par de vezes. A televisão é tudo a que se pode ambicionar, todas as moças querem ser atrizes de novelas, a fama é aparecer na televisão, quem aparece na televisão está feito na vida. Briga-se por tempo na televisão, ameaça-se o regime por causa de tempo na televisão e avacalha-se a imagem das instituições através dos que parecem sempre ansiosos por aparecer na televisão. Em relação aos ministros do Supremo, creio que todos os dias pelo menos uns dois deles se exibem em entrevistas. Houve a questão do mensalão, mas a moda e o costume já pegaram e qualquer processo no Supremo que venha a ter grande repercussão vai gerar novas entrevistas, pois ministro também é filho de Deus e, se não houvesse seguido a carreira jurídica, teria sido personalidade da televisão.
Quanto aos governados, as chances de aparecer na televisão são escassas e talvez o mais recomendável seja não ambicioná-las, porque isso pode significar que teremos sido assaltados ou atropelados, ou vovó esticou as canelas depois de quatro dias numa maca na recepção de um hospital vinculado ao SUS, ou já viramos presunto. Temos os nossos representantes, que podem representar-nos também aparecendo na televisão, são o nosso retrato. Continuam a caber-nos as duas certezas que Benjamin Franklin via na vida: death and taxes, morte e impostos. Nossas oportunidades de morte são amplas e diversificadas, de bala perdida a dengue. Em relação aos impostos, estamos a caminho do campeonato mundial. E, finalmente, contamos com o consolo de saber que todo poder emana do povo e em seu nome será exercido. Ou seja, pensando bem, não temos de quem nos queixar.

quarta-feira, 6 de março de 2013

IGREJA E CELIBATO

Respondendo a uma pergunta capciosa de seus inimigos mais ferrenhos, os fariseus, Jesus afirmou:
"Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus," - Mateus 22.29
Podemos "não conhecer" as Escrituras de duas maneiras:
1. não sabendo o que elas prescrevem sobre determinado assunto, e
2. ignorando deliberadamente sua prescrição sobre o assunto em pauta.

Toda a base em que se apóia o Cristianismo, enquanto religião institucionalizada, chega a nós através das Escrituras, isto é, da Bíblia Sagrada. Claro que as diversas confissões e denominações cristãs têm suas próprias histórias, de acordo com as diferentes cosmovisões que adotam, e na qual fundamentam seus credos e estabelecem suas doutrinas. Não podemos ignorar, porém, que é das Escrituras que vem toda a base na qual se apóiam as diferentes organizações religiosas; vamos chamá-las assim.

Voltando às palavras ditas por Jesus, e que abriram este breve comentário, - Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus -, somos severamente advertidos, e pelo próprio Mestre, que incorremos em erro, sempre que nos afastamos - deliberadamente ou por desconhecimento - dos ensinamentos transmitidos pelas Escrituras.

O celibato, adotado pela Igreja de Roma, sob a argumentação de propiciar maior envolvimento com as "coisas de Deus", desprendimento da família e renúncia aos prazeres da carne, como se pecaminosos fossem (mesmo dentro dos rígidos padrões éticos e morais disciplinados exatamente pelas Escrituras), entra em choque com a Bíblia e não resiste a uma confrontação, mesmo superficial.

Escrevendo a Timóteo, "pastor" da Igreja em Éfeso. o apóstolo Paulo dá a seguinte orientação:
Fiel é a palavra: se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja. É necessário, portanto, que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, moderado, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não violento, porém cordato, inimigo de contendas, não avarento; e que governe bem a sua própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo respeito (pois se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?); não seja neófito, para não suceder que se ensoberbeça, e incorra na condenação do diabo. Pelo contrário, é necessário  que ele tenha bom testemunho dos de fora, a fim de não cair em desonra e no laço do diabo.
Primeira Epístola de São Paulo a Timóteo, capítulo 3, versos 1 a 7

Também a Tito, líder da Igreja na Ilha de Creta, São Paulo confirma a mesma orientação:
Por esta causa te deixei em Creta para que pusesses em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísses presbíteros, conforme te prescrevi: alguém que seja irrepreensível, marido de uma só mulher, que tenha filhos cristãos que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados. Porque é indispensável que o bispo seja irrepreensível como despenseiro de Deus, não arrogante, não irascível, não dado ao vinho, nem violento, nem cobiçoso de torpe ganância, antes hospitaleiro amigo do bem, sóbrio, justo, piedoso, que tenha domínio de si, apegado à palavra fiel que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder, assim para exortar pelo reto ensino como para convencer os que contradizem.
Epístola de São Paulo aTito, capítulo 1, versos 5 a 9

Ao mesmo Timóteo, em sua Primeira Epístola, São Paulo é bem claro e taxativo:
Ora, o Espírito Santo afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios, pela hipocrisia dos que falam mentiras, e que têm cauterizada a própria consciência, que proíbem o casamento (grifo meu), exigem abstinência de alimentos, que Deus criou para serem recebidos, com ações de graça, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade; pois tudo que Deus criou é bom, e, recebido com ações de graça, nada é recusável, porque pela palavra de Deus e pela oração, é santificado.
Primeira Epístola de São Paulo a Timóteo, capítulo 4, versos 1 a 5

O próprio Pedro, apóstolo de Jesus, e um dos seus mais íntimos colaboradores, tinha uma sogra, curada por Jesus.
E saindo eles da sinagoga, foram, com Tiago e João, diretamente para a casa de Simão Pedro e André. A sogra de Simão Pedro achava-se acamada, com febre; e logo lhe falaram a respeito dela. Então, aproximando-se, tomou-a pela mão; e a febre a deixou, passando ela a servi-los.
Evangelho de São Marcos, capítulo 1, versos 29 a 31
Deixando ele (Jesus) a sinagoga, foi para a casa de Simão Pedro. Ora a sogra de Simão Pedro achava-se enferma com febre muito alta; e rogaram-lhe por ela. Inclinando-se ele para ela, repreendeu a febre, e esta a deixou; e logo se levantou, passando a servi-los.
Evangelho de São Lucas, capítulo 4, versos 38 e 39

Os textos acima evidenciam que Pedro era casado.

Outras confissões cristãs, como a Igreja Ortodoxa, adotam o celibato como opção, e diversas denominações protestantes nem mesmo ordenam pastores que não sejam casados.

Tudo isto pode levar-nos à falsa conclusão de que não existiriam problemas de ordem sexual nas igrejas que não obrigam ao celibato. Quem assim supõe ignora o que seja a natureza humana, o que não nos autoriza a nos afastarmos do que as Escrituras prescrevem em relação a sacerdócio e casamento, sob pena de incorrermos em erro, segundo a palavra abalizada do SENHOR JESUS.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Cosmovisão Cristã


Estou lendo um livro muito interessante, "O Universo ao Lado". Adquirido há uns cinco anos, somente agora resolvi lê-lo. Seu autor, James W. Sire, é editor sênior da Intervarsity Press e palestrante muito requisitado em colégios e universidades dos Estados Unidos e Europa. Ele é autor também  dos livros Scripture Twisting, Discipleship of the Mind, Chris Christmas Goes to College e Why Sould Anyone Believe Anything at All?

O assunto do livro: Cosmovisões. Cosmovisão é uma dessas palavras que ninguém, ou quase ninguém usa, e menos conhece. Vou transcrever a definição do próprio livro sobre cosmovisão.

"Em essência, é um conjunto de pressuposições (hipóteses que podem ser verdadeiras, parcialmente verdadeiras ou inteiramente falsas) que sustentamos (consciente ou inconscientemente) sobre a formação básica do nosso mundo."
O livro analisa coisas como teísmo, deísmo, naturalismo, niilismo, existencialismo, e por aí vai.

Eu não tenho intelecto suficientemente desenvolvido para captar tudo o que é ali abordado. Pelo menos em grau suficiente para assimilar seu conteúdo.
Todavia, entrei agora no capítulo que estuda Existencialismo, aquela vertente da Filosofia que ocupou a cabeça do grande pensador Jean Paul Sartre.

Um parágrafo desse livro, porém, chamou minha atenção, e quero conversar um pouco a respeito. Encontra-se à página 137, segundo parágrafo, que passo a transcrever.

"Sem dúvida, se o Deus judaico-cristão existe, fizemos melhor em reconhecê-lo porque nosso destino eterno depende disso. Mas dizem os existencialistas, a informação não está totalmente completa e nunca estará, e assim toda pessoa que quer ser um teísta deve dar um passo à frente e escolher pela fé. Deus nunca se revelará a si mesmo de uma forma que não seja ambígua. Consequentemente, cada pessoa, na solidão da sua própria subjetividade, rodeada por muito mais trevas do que luz, deve escolher. E essa escolha deve ser um ato radical de fé."

O parágrafo não se esgota aqui, mas é o suficiente.
Diz o autor que fizemos bem em reconhecer Deus porque nosso destino eterno depende disso. De certa forma isso é verdade. A Teologia, porém (pelo menos a Teologia Tradicional), diz que Deus nos alcançou. Não fomos nós que chegamos à conclusão de Sua Existência. Apenas nos rendemos à sua evidência. E o fizemos (se o fizemos), não movidos por uma abordagem intelectual ou filosófica, mas em resposta ao chamado de Deus. 

Ainda da Teologia, aprendemos que Deus nos chamou através de Seu Filho, Jesus Cristo. Claro que não chamou apenas a alguns diletos e seletos, mas a todos. Alguns responderam (e ainda hão de responder) ao chamado divino.
Em conversa com uns homens de origem grega que o haviam procurado, pouco antes de sua paixão e morte, Jesus lhes disse: "E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo." - João 12.32. Jesus atraiu (e atrai) todos; não somente alguns.
Levantado da terra significava crucificado, pois os condenados ficavam suspensos, pés fora do chão.

Os existencialistas dizem, ainda, que a informação (a revelação) não está completa e nunca estará. Até certo ponto, mas só até certo ponto, esta afirmação está correta. Os cristãos têm a Bíblia como a revelação de Deus ao homem, a Palavra de Deus. É como se fosse a própria boca do Todo-Poderoso a falar ao homem. Nos dias anteriores ao Advento do Cristo, essa revelação estava incompleta, pois a Palavra de Deus estava ainda em formação, parcial. A encarnação do Filho de Deus cumpriu as profecias que prometiam a restauração do Reino de Deus. Os judeus entendiam o conceito de Reino, como algo material, político, o que os levou a rejeitar por impostor, lunático, ou algo assim, o Filho de Deus. 

Reino de Deus, porém, está antes ligado aos valores espirituais, à indispensável reconciliação do homem com Deus, conseguida pelo sacrifício vicário, isto é, substitutivo de Jesus que ocupou, na Cruz, o lugar que era do homem, por direito de condenação, por sua condição de pecador.

O autor do livro bíblico de Hebreus (para alguns, Paulo) assim abre o livro:

"Havendo Deus, outrora, falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais (referia-se aos judeus), pelos profetas (Isaias, Jeremias, Ezequiel, etc.), nestes últimos dias nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Ele (o Filho, Jesus), que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser (do Ser de Deus), sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados (através da Cruz), assentou-se à direita da Majestade nas alturas (posição de autoridade), tendo-se tornado tão superior aos anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles. Hebreus 1.1-4.

Quer dizer: Além de seu papel de nos substituir na cruz, pagando Ele o preço do pecado, que era nosso, Jesus é A Palavra. É como se antes de Jesus tornar-se homem, comum e mortal como qualquer de nós, a Palavra de Deus subsistisse escrita nos pergaminhos e vocalizada através dos profetas, conforme afirma o início de Hebreus (1.1). Quando chegou até nós e começou Seu ministério, falando, pregando, curando, ressuscitando mortos, etc., foi como se a própria Palavra de Deus, Segunda Pessoa da Trindade Eterna se materializasse no Jesus histórico.

Nesse sentido, a informação está completa. Absolutamente completa. Nada mais há a acrescentar. De outro lado, porém, podemos admitir com os existencialistas, ditos teístas, que realmente a informação nunca estará completa. Não porque falte algo na informação, mas porque o homem nunca se dá por satisfeito. Para o homem, decaído, espiritualmente morto, sempre faltará algo. Ele quer crer, sente que precisa disso, mas sempre resta uma dúvida, alimentada pela ausência, e não pela insuficiência de fé.  

O texto continua, dizendo que Deus nunca revelará a si mesmo de uma forma que não seja ambígua. Neste ponto tenho de concordar com os existencialistas. Ao revelar-se ao homem, Deus realmente o faz de maneira ambígua. Ou os judeus teriam crido e aceitado Jesus. Mas como aceitar alguém como Ele? nascido fora dos grandes círculos da Judéia, quando O esperavam num palácio. Nascido de uma família pobre, de u`a mãe de cuja virtude se podia duvidar (virgem, grávida?!). Mesmo a despeito de Isaías, cerca de 700 anos antes de seu nascimento ter dito claramente que "... a virgem conceberá e dará à luz um filho..." Não! Era demais! Como aceitar a chegada de alguém assim? Mas quê? Tratar-se-ia de um ser defeituoso, sem pai gerador? O que é isso? Até hoje se especula sobre a possibilidade de sua origem extra-terrestre. E suas atitudes, então? Dado a relacionar-se com publicanos (colaboracionistas com os odiados romanos) e prostitutas; nunca frequentou as escolas de rabinos, tidas por absolutamente necessárias, fundamentais! Era por isso, com certeza, que não se enquadrava nos padrões sociais e religiosos vigentes. Querem maior ambiguidade? 
A Palavra de Deus, porém, é pródiga em mostrar como e quanto naquele carpinteiro extemporâneo cumpriram-se as profecias messiânicas que prometiam o resgate de Israel, através do Messias.
No Evangelho escrito por Mateus, cujo objetivo e finalidade foi mostrar aos judeus que Jesus era realmente o Messias prometido e ansiosamente aguardado, seu autor lista dezenas de fatos que cumprem as profecias esparsas pelos livros do Antigo Testamento, desde o Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), passando pelas poesias dos Salmos escritos pelo rei Davi, e chegando aos profetas (Isaias, Jeremias, Ezequiel, Daniel, Miquéias, e tantos outros). 

Jesus, porém, continua ambíguo. Para nele crer e assumi-lo como Filho de Deus,  Salvador, Senhor, Sacerdote, Profeta, Rei e igualmente Deus, com o Pai, temos de nos despir de muitos preconceitos. Por isso, a decisão humana deve constituir NECESSARIAMENTE um ato radical de fé.

Nossa sociedade moderna, assumidamente racional, que acredita somente naquilo que pode ver, apalpar, cheirar, embora em sua racionalidade louca acabe por aceitar muitas das afirmações da Ciência pela fé (como poderia um homem comum constatar racionalmente a existência do átomo, por exemplo?), terá de dar um passo radical de fé, se ousar crer, pois sempre estará frente a ambiguidades.

Após esse salto radical de fé (passando por cima de raciocínios, demonstrações filosóficas, posturas modernas, etc.), mas sem abrir mão do raciocínio, crer se tornará algo fácil, fluido, tranquilo. E trará a paz. Que aliás sempre foi a finalidade da vinda de Jesus ao mundo. 

"Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados." Isaias 53.5

A diferença, a radical diferença é que não é o homem que chega à conclusão de Deus e à fé. Apenas responde ao comovente chamado de Deus.

"Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores." - Romanos 5.8

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Não concordo, mas pode defender seu ponto de vista

Voltaire, o grande filósofo do Iluminismo, disse algo como, "Não concordo com uma única palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo". Esta é uma das características mais marcantes do que chamamos democracia: o respeito à opinião alheia. Antes de um regime político, até mal definido, democracia significa liberdade.
Esta frase de Voltaire veio-me à memória nestes dias em que por causa de um "filme" - segundo consta, muito ruim - , muçulmanos de todo o mundo têm saído às ruas a fim de não só protestar, mas de exigir do governo norte-americano providências no sentido de proibir sua exibição, não só em cinemas (como se fosse possível), mas também pelo Youtube.
Em que pese o possível exagero dos que se julgam ofendidos, consideremos a insanidade de quem fez um filme provocativo, além de ostentar gosto duvidoso, segundo quem a ele assistiu.
Muçulmanos do mundo inteiro têm em Maomé o único profeta de Alá. Sua representação pictórica ou em filmes é rigorosamente proibida nos países islâmicos, que consideram desobediência a este preceito blasfêmia punível com a morte.
Carlos Novaes, cientista político, que divide a bancada com a Maria Cristina Poli no Jornal da Cultura (Canal 2) - São Paulo, a respeito, salientou algo digno de nota: disse ele que personalidades ou objetos sagrados só o são para quem neles acredita, não sendo ponderável, portanto, que se proíbam críticas a que culto, personalidade ou religião se apresente. Exceto para quem neles crê, qualquer símbolo religioso só é sagrado para o adepto daquela confissão religiosa. Qual o significado da cruz para um muçulmano, um budista, ou mesmo um ateu? Nenhum. Exceto que dentro dos princípios da democracia, todos devem respeitar símbolos e crenças dos demais. 
Carlos Novaes posicionou-se favorável a que símbolos e crenças religiosos sejam, sim, discutidos, não tendo qualquer sentido proibir-se a livre manifestação de pensamento por ferir suscetibilidades alheias. Exageros à parte, Novaes está coberto de razão. 
Nos países islâmicos é terminantemente proibida a pregação de religiões outras, que não o Islamismo. Enquanto isso, muçulmanos estrangeiros em países ocidentais exigem o direito ao uso do véu e até mesmo da burka por parte de quem assim o desejar. Dois pesos e duas medidas.
É sabido, ainda, que padres e pastores protestantes são até mesmo condenados à morte pelo fato de, na convivência com os naturais dos países muçulmanos em que passaram a morar, muitas vezes até por dever de ofício, recebem a "conversão" de muçulmanos à fé cristã, conversão proibida pelas rígidas leis islâmicas.
E enquanto isso, de mudança para países cristãos, gozam de plena liberdade de culto, de construir suas mesquitas e, mesmo, exercer forte trabalho proselitista.
O Cristianismo e seus símbolos, a Cruz, a Bíblia, as imagens de santos têm sido desrespeitados e vilipendiados por todos os lados nas sociedades ocidentais. Jesus já foi acusado de manter relacionamento homossexual com João, o discípulo amado. Dan Brown, em sua obra O Código Da Vinci, defende a tese de que no célebre quadro A Santa Ceia, é Maria Madalena, e não o discípulo João, a pessoa que reclina a cabeça no colo de Jesus. Seria ela, sua esposa. Vai mais além: Jesus teria sido casado com Madalena, com quem teve uma filha, e que ambas, após a morte de Jesus (descartada sua ressurreição) teriam sido obrigadas a fugir, refugiando-se na França, sob a proteção dos druidas, espécie de feiticeiros.
Na remota possibilidade de ser verdadeira tal assertiva, isso representaria uma reviravolta absolutamente radical no Cristianismo, tal como o conhecemos. Jesus teria simplesmente morrido, como qualquer ser humano, seus discípulos se teriam revelado cruéis ao perseguir a escolhida por Jesus, além da própria filha, o que colocaria homens humildes, pescadores em sua maioria, na incômoda posição de algozes e calculistas frios, além de colocar a filha de Jesus com Madalena como neta de Deus!
Sacrilégio! Gritariam alguns, escandalizados.
Revolucionário, hippie, desajustado, louco, esquizofrênico, usurpador, entre tantos outros títulos nada respeitosos têm alcunhado aquele que um dia, deixou a glória que tinha junto ao Pai, bem como sua posição de divindade, a fim de viver a vida comum de homem, e acabar morto numa cruz, a mais infame, vergonhosa, ignominiosa forma de executar criminosos da pior espécie, reservada a assassinos, terroristas, estupradores, e por aí afora.
A fé cristã, porém, segundo a narrativa bíblica, coloca essa execução como vicária, isto é, substitutiva. Jesus, para o cristão, estava substituindo o homem, pecador, na cruz. Assim agiu, para livrar o ser humano de castigo semelhante, livrando-o, assim da pena por se ter tornado pecador. E uma vez consumada sua execução, o homem foi tornado livre da pena.
Parece loucura? Insanidade? Não para o cristão. No entanto, todas as denominadas "blasfêmias" de que têm sido rotuladas diferentes visões do Cristo e de sua missão por aqui, não têm gerado senão democráticos protestos por parte de seus seguidores. Mesmo que consideremos que boa parte da chamada Crtistandade gostaria de impedir pela força da lei, tais concepções acusadas de sacrílegas.
Paremos por um pouco e pensemos. Como cristãos (para quem o é): Jesus precisa de quem o defenda? Ou será que não temos fervor religioso suficiente para lutar e impedir que o nome de Jesus Cristo continue sendo vilipendiado mundo afora?
Se atentarmos, porém, para os ensinamentos do próprio Jesus, não contra-atacaríamos, exatamente como se tem feito. Não necessariamente por seguirmos tais ensinamentos.
"Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: Não resistais ao perverso; mas a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas." - Ensino de Jesus Cristo em Seu Sermão do Monte - Evangelho de Mateus 5.38 a 41
Jesus comportou-se ató o fim da forma como ensinou, pregou e viveu. Diante do pusilânime, oportunista governador romano, Pôncio Pilatos, que incita Jesus a defender-se das acusações feitas, Jesus responde:
"O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui." - Evangelho de João, 18.36
Ao longo da História, o mundo tem sido palco de guerras terríveis, muitas vezes entre povos irmãos, como agora, na Síria. A Guerra Civil Espanhola é outro triste exemplo de guerra fratricida. A luta milenar entre judeus e palestinos, bem como outras guerras, como entre bascos e espanhóis, irlandeses e ingleses, etc., poderiam ter desfecho radicalmente oposto se os ensinamentos de Cristo - aliás ignorados pela própria Igreja - fossem seguidos e vividos.


                    

quinta-feira, 9 de agosto de 2012


PARAGUAI, MERCOSUL E A DEMOCRACIA


O Paraguai permanece tratado como mendigo pelas "potências" vizinhas. Pode-se considerar que o processo - meio para o sumário - da destituição de Fernando Lugo da Presidência do Paraguai foi curto demais, que não teria havido tempo hábil para que ele pudesse defender-se, etc.

Tem somente um "pequeno" detalhe: tudo ocorreu rigorosamente dentro das leis do país, numa espécie de misto entre regime presidencialista e regime parlamentarista (com seu voto de desconfiança). Os trâmites legais, porém, foram contemplados.

Não ocorreu (possivelmente porque não tenha interessado) aos demais membros do Mercosul, que decidiram pela suspensão do Paraguai, que estavam "julgando" um país soberano, agindo dentro das leis do país, que podem, sim, ser consideradas anti-democráticas, mas que fazem parte da sua Constituição.

Talvez tenham se aproveitado da situação inusitada em que se encontrava o país para introduzir Hugo Chavez no Mercosul. Não atentaram, não levaram em conta os artigos do acordo, que exigem unanimidade na admissão de membros novos. E o Paraguai foi suspenso; não foi expulso.

Outra cláusula do Mercosul exige democracia dos integrantes do bloco. E passando por cima dessa evidência grosseira, admitiram como membro pleno um país que tem violado sistematicamente as mais elementares regras da democracia, ao impor severa censura à imprensa e demais meios de comunicação; que remaneja maliciosamente distritos eleitorais, a fim de propiciar a vitória do chavismo; que aparelhou cinicamente o próprio Judiciário venezuelano. 

Diz-se que a Venezuela tem governo democrático porque realiza eleições. Ora, eleições são realizadas nos países mais ditatoriais e totalitários do mundo: Coréia do Norte, Cuba, Irã, Arábia Saudita (a despeito da monarquia), como eram realizadas na Alemanha Nazista, na União Soviética, etc.

Somente eleições não caracterizam, nem podem caracterizar democracia. Além de eleições e de imprensa livre, que garanta liberdade de opinião, há de ter também instituições igualmente democráticas, com garantias plenas de funcionamento, Judiciário independente, Legislativo idem. 

O jornal O Estado de São Paulo do último domingo, 5 de agosto de 2012, traz à página A 12, interessante entrevista com Federico Franco, Presidente Paraguaio, que faz análise muito oportuna da situação.

Apenas para refletirmos um pouquinho: quem é a Argentina (que tenta sufocar a imprensa, impedindo jornais de importar papel), para arrogar-se o direito de acusar o Paraguai de não democrático? E a Venezuela? Mesmo o Brasil, afundado até o pescoço em escândalos de corrupção, violência policial, insegurança pública em virtude de leis lenientes, que expõem a parcela sadia e honesta da população a ataques de bandidos, sistematicamente postos em liberdade, em nome de uma questionável ressocialização?

 Quem conferiu legitimidade e forneceu atestado de idoneidade moral aos nossos países para julgar decisões políticas que até podem ser questionadas, mas que estão dentro do arcabouço jurídico e constitucional (consequentemente, legal) de um país soberano?

E por que esses mesmos argumentos não foram utilizados para Ahmed Armadinejad, Presidene do Irã?